Marcelo Silveira | Nara Roesler

Nara Roesler Rio de Janeiro tem o prazer de convidar, no dia 11 de fevereiro  de 2025, às 18h, para a abertura da exposição “Entre o mar, o rio e a pedra”, com obras do artista pernambucano Marcelo Silveira, em sua primeira individual na cidade. Os trabalhos de Marcelo Silveira vão ocupar o térreo e a parede de pé direito duplo abaixo da claraboia da Nara Roesler Rio de Janeiro, dando uma oportunidade ao público de conhecer de forma mais abrangente a produção do artista, que ao longo dos 40 anos de sua trajetória se consolidou como um dos grandes nomes da cena contemporânea. No dia da abertura, às 19h, haverá uma visita guiada à exposição com Marcelo Silveira e Daniela Name, autora do texto crítico.

As 17 obras que compõem a individual de Marcelo Silveira foram selecionadas por ele em conjunto com o núcleo curatorial da Nara Roesler, de modo a enfatizar seu processo de trabalho e pesquisa, em que estão presentes o fazer elaborado e a ideia de coleção – madeiras, revistas, fios de crina de cavalo, principalmente.  A mostra apresenta duas obras inéditas da série “Bolofotes” (2023 e 2024) – palavra que se pronuncia com o “o” fechado,usada no nordeste para apontar algo disforme, “quase como se colocasse três ovos em uma meia, e que vai se configurando a cada movimentação”, diz o artista. “É uma prática de organização do espaço, de sair construindo. Faço muito desgaste na madeira, e nessa série, pela primeira vez, vou acrescentando e desgastando. É um desdobramento da prática de coleção, em que você vai juntando coisas, organizando, compactando”.

Nas três obras da série “Sementes” (2024) que estarão na mostra, o artista cria pequenos volumes de madeira cajacatinga que se assemelham a sementes e que, por sua vez, são agrupados em um volume único. “É fruto de experimentos que fiz com pedaços de sobras de madeira. A primeira semente foi resultado da junção de coisas que estavam esquecidas. Na segunda acrescentei mais alguma coisa, e a terceira foi toda nova. Dá um trabalho infernal fazer”, comenta rindo o artista. “A semente é a origem, é quem responde pela multiplicação da espécie. É o brotar, e quando se volta pra origem, e toda hora estou voltando, pra tela, pras pesquisas sobre as sementes da madeira que usei muitos anos. Uso as raízes, as sobras, e quero que essas árvores voltem a existir, que eu possa encontrar essas árvores com maior freqüência, mais regularidade. As sementes estão na minha cabeça”, diz.

A madeira cajacatinga (Lamanonia speciosa), que Marcelo Silveira usa em suas esculturas, foi muito usada na construção de engenhos de açúcar no sul de Pernambuco, por ser resistente à água. As plantações de cana e o engenho deram depois lugar a pastos, restando da árvore apenas seus tocos, parcialmente carbonizados, provavelmente devido à prática do fogo nos antigos canaviais. Foi dessa forma que o artista tomou contato com a madeira. Ele pegou um desses tocos, desbastou, e viu que a madeira “estava totalmente boa”. “Elas sobraram na região, porque ninguém levava pra queimar em casa. Elas estavam me esperando… É um trabalho de prospecção e de arqueologia, porque onde tem um toco tem raiz, que às vezes são imensas e em alguns casos foram absorvidas pelo solo e viraram material orgânico”.

Outro destaque da exposição é o conjunto de nove obras da série “Cabeludas” (2006), em couro bovino, crina equina e aço inoxidável, com 2,25 metros de altura por 47 cmde largura. “A discussão dos meus trabalhos sempre tem a ver com os planos bidimensional e tridimensional, com as questões relativas à pintura e à escultura no espaço, e esta série fala muito de pintura”, diz Marcelo Silveira. Outra característica das “Cabeludas” que acentuam seu caráter pictórico é a relação com os

pinceis feitos de crina de cavalo, e os tons em degradê dos fios. “Elas surgem da tentativa de organizar, retomar, trabalhos antigos, essas coisas todas voltam”, explica. Ele conta que a coleta da crina do cavalo é muito semelhante à que se faz com fios de cabelo para a confecção de uma peruca. “Não prejudica o animal, ao contrário: quando se poda o cabelo ou a crina, ele se revitaliza, nasce, cresce e se desenvolve em maior abundância. A prática da poda no cavalo é recorrente”, afirma. Os fios coletados são selecionados, higienizados, alinhados por tamanho, organizados, e alguns são tingidos.

Marcelo Silveira conta que em Cachoeirinha, em Pernambuco, há profissionais especializados em fazer uma pequena manta, uma indumentária para o cavalo, feita de crina. “Elegantíssima. Quando eu vi isso resolvi subverter esta ordem, e criar essas cabeludas gigantescas. Eu dou muita importância aos cabelos, não sei por que”, brinca ele com o fato de ser careca.

Michael Asbury, autor do livro “Marcelo Silveira: Ata” (2022, Nara Roesler Books), relata sobre as “Cabeludas” que na primeira versão de seu texto, “escrita na língua inglesa, fez-me notar que a pronúncia de hairy tails [caudas cabeludas] tem exatamente o mesmo som que hairy tales, cuja tradução em português seria ‘estórias cabeludas’, ou seja, uma gíria para descrever algo entre um relato exagerado e uma mentira descarada”. “A justaposição aqui é interessante como meio de entrar, de forma hiperbólica, no mundo de Marcelo Silveira, no qual o fato é muitas vezes justaposto à ficção, a memória à invenção, a descrição à insinuação”. Ele continua: “Este relato exagerado sobre o título de uma obra de arte implica, portanto, um certo nível de ficção que é inteiramente obra do autor. Ao identificar uma associação que não se pretendia, surge, no entanto, uma analogia que é tão factual quanto inventada”.

Em obras do artista como as da série “Peles” (2022-2024), que integrarão a exposição, Marcelo Silveira aborda os limites da plasticidade da cajacatinga, esculpindo-o, desgastando-o e criando linhas de resistência em sua superfície. Em seguida, organiza essas esculturas em diferentes configurações, construindo formas que brotam das paredes ou do chão.

A exposição terá ainda três conjuntos de colagens da série “Hotel Solidão”, “que se iniciaram com uma coleção de edições da revista de variedades, folhetins e fotonovelas ‘Grande Hotel’ (Editora Vecchi), de 1947 a 1955”, lembra o artista. Nesses trabalhos, ele usa as capas da publicação,feitas por ilustradores italianos, são cuidadosamente selecionadas, higienizadas, cortadas e então coladas sobre papel cartão, em diversas composições que chamam a atenção pelas suas cores peculiares e por destacar as diversas camadas de papel ali organizadas.

 

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