Mabe Bethônico | Galeria Marilia Razuk

“Estava em Genebra percorrendo a caatinga num texto em francês; a distância geográfica somava-se aos contrastes de tempo à minha janela e criava cenários imaginários. Eu trabalhava sobre a floresta branca brasileira, seca, plana ou ondulada, quente, e, lá fora, as montanhas de neve úmida ou o vento frio constante de Genebra. Eu buscava dias iguais, mas eles não coincidiam, quem sabe a mesma luz, um mesmo céu limpo.” O contato pela dissonância que guiou a busca e a releitura feitas pela artista Mabe Bethônico a partir da obra do geólogo e engenheiro Edgar Aubert De La Rüe (1901-1991), em sua expedição pela caatinga brasileira, é tema da mostra BR 122: notícias de viagens à caatinga, que a galeria Marília Razuk abre no dia 3 de setembro.
Em missão da Unesco, Aubert De La Rüe realizou sua expedição pela caatinga brasileira nos anos 1950, em busca de minérios. Encontrou muito mais do que procurava: uma diversidade cultural e popular – marcadas pelo artesanato, feiras de rua, plantas e paisagens – que modificou não apenas sua viagem, como também sua visão do Brasil. Caminhando por um Nordeste desigual, miserável e seco, a experiência proporcionou ao geólogo a visão de um país dividido: o Novo Brasil, que se urbanizava, desenvolvia e internacionalizava, em contraponto com um velho Brasil de modos, valores e condições arcaicas de existência. A experiência gerou o livro Brésil Aride – La vie dans La caatinga/ Árido Brasil – A vida na caatinga, hoje fora de circulação, mas que é retomado pela artista no livro “De como Mabe Bethônico percorreu a caatinga na Suíça”, publicado pelas Edições Capacete-RJ em 2013.
A artista realizou sua pesquisa de três maneiras: na tradução do livro de Aubert de La Rüe, na pesquisa em arquivos sobre o geólogo e numa nova expedição, percorrendo os mesmos caminhos, vendo as transformações da caatinga nos últimos anos – e a manutenção dos mesmos problemas de sempre.
Disso nasce a exposição da artista, com curadoria de Ana Paula Cohen, que criará, no espaço da galeria Marilia Razuk, uma construção modular de ilhas de conteúdo, para abordar a complexidade das questões que inquietaram o autor, buscando atualizá-las com conteúdos de novas fontes criadas e levantadas pela artista. O trabalho apresenta esse ‘personagem’ viajante, que se debruçou particularmente sobre algumas questões: os mercados de rua e o turismo, as ilhas, os ventos e os vulcões, por exemplo. A exposição é uma navegação por interesses de um indivíduo, para a construção de outros mundos de imaginação.
As informações contidas na agenda são de responsabilidade dos museus e galerias e não representam a opinião da Dasartes.

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