No sábado, 28 de março, o ritmo acelerado e a explosão de cores das fantasias de Clóvis ganham a tela do Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo, às 15h30. Inédito e experimental, o curta-metragem documental “Sonho e Delírio” revisita obras do fotógrafo Luiz Baltar e convida o público a uma imersão poética no universo dos bate-bolas, uma das manifestações mais emblemáticas – e, por vezes, incompreendidas – do carnaval de rua carioca e fluminense.
Após a sessão, a equipe do filme participa de um debate com o público. A entrada é gratuita, sem necessidade de inscrição prévia. Contemplado no Edital Pulsar Palavra Líquida Sesc 2025, cujo tema foi “Tempo e Festa”, o curta também será exibido em outras unidades da instituição.
Produzido e lançado pela Fluxorama, “Sonho e Delírio” constrói um diálogo entre tempos, linguagens e sensibilidades ao fundir fotografias de Luiz Baltar à narração do texto “Cordões”, de João do Rio, cronista da vida urbana carioca do início do século XX. A costura entre imagem, literatura, performance e som resulta em uma experiência sensorial que atravessa passado e presente e revela a potência artística e comunitária dessa expressão popular.
“A força cultural dos bate-bolas permanece pouco documentada no campo das artes visuais, apesar da sua importância para a cultura carioca e fluminense. As mais de 200 turmas ativas representam uma vigorosa tradição carnavalesca e uma rede complexa de saberes que passa de geração em geração, desde a confecção artesanal das fantasias, as linguagens próprias de cada grupo, os códigos de convivência até os rituais das saídas. Essa minha documentação fotográfica, realizada ao longo de mais de uma década e incorporada ao filme, contribui para preservar e valorizar essa manifestação cultural que, apesar de sua relevância, segue estigmatizada”, enfatiza Luiz Baltar.
A narrativa da produção se organiza a partir de uma estrutura dual. No primeiro momento, o Sonho, a câmera acompanha a preparação íntima, quase silenciosa, para a saída às ruas: os gestos repetidos, o cuidado com a fantasia e a expectativa que antecede a festa. Enquanto isso, os movimentos do dançarino Geovanne Pereira Chagas, conhecido como Laranjinha Ritmado, funcionam como metáfora corporal dessa excitação contida, quase ritualística. Em seguida, o filme mergulha no Delírio, quando a explosão da folia toma o espaço urbano e os bate-bolas ocupam as ruas com cor, som e intensidade.
“Escolhemos gravar a performance de um dançarino de funk para mostrar que, embora o tempo passe, o espírito da festa e a resistência cultural permanecem intrínsecos à identidade do Rio”, afirma Baltar.
“Tanto na concepção quanto na produção e na edição do filme, não nos interessava criar uma experiência que explicasse os bate-bolas, mas que convidasse o espectador a senti-los, acompanhando esse movimento entre preparação meticulosa e euforia coletiva que atravessa o carnaval”, destaca Marcio Nolasco, diretor do filme.
Assim como nas imagens de Baltar, o filme traz um aspecto fantasioso e lúdico para o trabalho e alegria dos bate-bolas, que reúnem desde homens, mulheres, crianças até famílias inteiras. Ao evidenciar os bate-bolas como patrimônio cultural vivo, o curta contribui para a ampliação do imaginário em torno desse ritual e propõe novas formas de olhar para o carnaval da cidade e do estado do Rio de Janeiro.
“A fotografia e o audiovisual têm o poder de suspender o tempo e permitir que esses corpos, fantasias e gestos permaneçam, mesmo depois que a folia termina”, conclui Nolasco.


