Até o dia 11 de julho, a galeria O Jardim recebe “Força Maior”, nova exposição da artista visual Lucrécia Couso. Com curadoria de Andrés Hernández, a mostra reúne fotografias, instalações, livros-objeto, tecidos e elementos orgânicos em obras que investigam memória, transformação e os vestígios deixados pelas relações humanas e pelo tempo.
Partindo da fotografia expandida — linguagem em que a fotografia deixa de existir apenas como imagem final e passa a ocupar o espaço de forma física, sensorial e material —, Couso constrói obras que transitam entre delicadeza e tensão. Linhas vermelhas atravessam imagens e plantas crescem sobre as superfícies expositivas, criando trabalhos vivos e em constante transformação.
Dividida em três núcleos, Força Maior apresenta camadas do universo poético da artista. Em “Andrômeda”, série composta por 11 obras, as fotografias aparecem costuradas manualmente com fios vermelhos em composições que evocam ausência, afeto e reconstrução emocional. As obras carregam títulos como Pegue Tudo de Volta, Leve Isso em Seu Coração e Faça Isso pelos Melhores Momentos, ampliando o caráter íntimo do conjunto.
Em “Injúria” (série composta por 50 imagens) e “Ternura” (série composta por 20 imagens), a artista observa a presença insistente da natureza nas cidades, através da fotografia. São arbustos que rompem muros e vegetações que surgem entre rachaduras e espaços ínfimos. Na obra Regeneração, uma mesa de perícia médica em alumínio recebe matéria orgânica viva que continuará se transformando ao longo dos 45 dias de exposição. Neste eixo, Couso ainda observa as formas de coração criadas pelo acaso em calçadas e paredes por onde andou, que resistem como sinais de afeto e de ternura em meio à rigidez urbana.
O terceiro bloco, “Ancestralidade”, mergulha na memória familiar da artista e na relação com a mãe, costureira. Tecidos, costuras e materiais naturais aparecem como símbolos de cuidado, continuidade e reparação, aproximando o gesto manual da construção da memória. É também o núcleo em que a artista mais insere referências ao próprio corpo na mostra, a partir das próprias tatuagens presentes na instalação Mais Amor, Por Favor. Também integram o núcleo os cinco livros de artista, produzidos de 2024 a 2026, a partir de diversos materiais.
“Força Maior fala dessa potência inevitável que move as coisas. Existe uma força na natureza, mas também nos afetos, na memória e nas experiências humanas. São movimentos que muitas vezes escapam ao nosso controle, mas continuam existindo e transformando tudo ao redor”, afirma Lucrécia Couso.
Com entrada gratuita, a mostra marca a primeira exposição individual de uma artista visual na galeria O Jardim, centro cultural dedicado à fotografia contemporânea inaugurado em 2024 na Mooca. Fundado pela artista visual e fotógrafa Malu Mesquita e pelo curador Renato Negrão, o espaço reúne galeria, laboratório analógico, biblioteca, editora e escola, propondo uma programação voltada às artes visuais, de modo a descentralizar o eixo artístico em São Paulo e mover novos olhares para a Zona Leste.
“Muito do que pensamos para O Jardim passa pela ideia de ampliar as possibilidades da fotografia contemporânea e aproximá-la de outras linguagens e materialidades. O trabalho da Lucrécia dialoga profundamente com isso”, afirma Mesquita. “Existe uma dimensão muito orgânica na forma como ela ocupa o espaço. As obras criam relações entre imagem, memória, matéria e natureza de uma maneira bastante sensível, mas também muito física”, completa Negrão.

