Lucia Tallova | Galeria Karla Osório

Os temas e motivos da pesquisa da artista assumem o proscênio de sua fabulação poética dos
materiais coletados localmente e dos quais se apropria para o preenchimento das lacunas deixadas,
por exemplo, pelas fotografias que se extraem de publicações antigas como a revista O Cruzeiro, cuja
circulação coincide com o período da fundação da cidade de Brasília, ou enciclopédias antigas nas
quais a artista busca sintomas de uma história de objetificação e rebaixamento da mulher.
Todo o elemento documental é objeto de atuação ou interferência poética em sua obra e a
arquitetura modernista de Brasília ressurge fragmentada em meio às fotografias de trechos
arquitetônicos e as pinceladas da artista, cujo solo de partida é invariavelmente a pintura. Suas telas
ou as pinturas que produz sobre papel antigo, figuram em mostras resultantes de residências que já
vivenciou no Japão e nos EUA também e carregam a particular visão da artista de motivos herdados
do Romantismo histórico, situado na fronteira entre os séculos XVIII e XIX.

A lógica da apropriação, do objet trouvé (objeto encontrado e da assemblage que se define
pela reunião de colagens e materiais tridimensionais), domina as instalações concebidas pela artista
em que se conjugam peças de mobiliário local com fotografias cuja narrativa se constrói a partir das
relações tramadas no interior de sua obra.

Longe de Tudo convulsiona os restos de objeto de que se vale – a etimologia mesma de relíquia
– relicta – ilumina intensamente o exercício de uma arqueologia que redefine as noções de Arquivo e
História a partir de sua fabulação poética. O arquivo e suas relações com o passado não se restringe
aqui à disciplina histórica, mas se estende à narrativa mesma do sujeito que se articula nas malhas da
linguagem. A memória e o esquecimento ocupam o universo de Lucia Tallova e concedem-lhe, por
assim dizer, os motivos a serem decantados por sua investigação artística e sua materialização.
O passado é sempre o objeto de uma fabricação. O passado é ficção. É, portanto, na
ultrapassagem do modelo mimético em que se articulam contíguos “modelo” e sua “imitação” ou
“representação” que a construção do universo poético da artista se assenta. Ao concentrar-se sobre
as possibilidades imaginativas, alegóricas e retóricas de seus arranjos – as composições em que se
costuram objetos, fotografias e mobiliário advindos das mais distintas origens – a artista acaba por
reescrever a história destes objetos ao reinscrevê-los dentro daquilo que doravante o terreno que é

sua obra lhes imprime como reescritura e reinscrição de sua autora. Ela adere a uma particular e
intransferível visão de motivos herdados do Romantismo histórico. As nuvens e céus que assombram
sua pintura insistentes são recorrentessigno de um sintoma que transcende as origens do movimento.
Sua abordagem arquival é capaz de produzir certa apreensão das intensidades passionais (pathos)
daquela estética que empresta drama e pungência à fabulação poética das memórias incorporadas.
Em sua obra a noção de assemblage transcende os objetos para converter-se em princípio
estruturante. A História, o Arquivo e o Documento são vestígios, ruinas e relíquias nos quais a artista
baseia sua (re)escritura de um passado capaz de ofertar potentes alegorias que contribuem para
perspectiva inteiramente outra de verdade. A verdade artística, catártica é o resultado de seu esforço
para desvelar um passado de obscenidades e ocultamentos. Neste sentido, suas instalações são
imagens a emprestar visibilidade retrospectiva a um passado que finalmente pode vir à luz. Sua
veemência poética é explicitamente ativista e aí reside seu singular feminismo: em sua meticulosa
artisticidade a envolver aquele que olha nestas nuvens pictóricas, a investir o espaço com visões de
um ofuscante e sempre por vir passado.

Só a distância autoriza que se possa reescrever e reinscrever o objeto olhado. Longe de Tudo
é mais uma empreitada de Tallova em que a noção mesma de distância em que a relíquia arquival da
sua poesis emerge como sintoma e metáfora de uma distância que só a Arte pode de fato mensurar
precisamente por conta de uma ameaçadora proximidade.

Longe, e ainda tão perto; como em um sonho.

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