Lívia Aquino | Casa da Imagem

“Canalha”. Essa foi a palavra costurada numa bandeira de algodão exposta por Waldemar Cordeiro na Bienal de Artes da Bahia em 1966, período inicial da ditadura civil-militar no Brasil. Antônio Carlos Magalhães, governador do estado naquele momento, censurou esse e outros trabalhos da mostra por gerarem questionamentos acerca do contexto. Esta obra foi revisitada pela artista Lívia Aquino na exposição “2720. Viva Maria”, que será lançada em 25/10, na Casa da Imagem.

Cinquenta anos depois da Bienal da Bahia a bandeira tornou-se uma imagem repetida nas redes sociais associada a canalhocracia fendida no país. Ao recuperar o trabalho de Cordeiro, Lívia Aquino propõe uma ação de tradução na intenção de múltiplo, costurar 2720 bandeiras coletivamente com vistas a cobrir a empena do prédio anexo ao Congresso Nacional em Brasília. Ainda nessa direção, a palavra passa do singular para o plural – canalhas – e o modo de exibição é alterado para a horizontal, saindo do mastro e ganhando o gestual dos braços, semelhante ao que acontece nas manifestações de rua.

A artista é doutora em Artes Visuais pela Universidade de Campinas (Unicamp) e sua prática opera conexões entre a imagem, a escrita e a leitura, explorando seus significados e os sentidos que produzem no espaço e com o outro como participador. Para 2720 Viva Maria a artista mobiliza, desde 2017, grupos diversos para costurar e conversar acerca dessa bandeira e de assuntos relevantes para os presentes, aquilo que pode atingir a todos.

Na Casa da Imagem propõe uma inserção em lambes no muro interno do quintal, abrindo espaço para a oficina de costura ao longo da mostra. Bandeiras costuradas estarão presentes também ocupando tanto a fachada como a parte interna do prédio. Durante a exposição dos lambes – outubro a março – a instituição e a artista abre a mesa de costura para quem quiser e puder sentar para a conversa em torno da palavra, do contexto em que ela é usada, das histórias que cercam a bandeira de Waldemar Cordeiro e sua tradução no contexto atual.

A Casa da Imagem, localizada no Centro da capital paulista, é uma das 13 unidades do Museu da Cidade de São Paulo, que tem como sede o Solar da Marquesa de Santos. De forma geral, o museu discute várias temáticas nas áreas de arquitetura, história, antropologia e arqueologia, por meio de exposições e outras manifestações artísticas de diversas linguagens que se conectam entre si.

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