Letícia Parente | MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Letícia Parente, Marca Registrada, 1975, vídeo, 10’33”, Espólio Letícia Parente e Galeria Jaqueline Martins

O MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, em conjunto com a Secretaria Especial da Cultura e o Ministério do Turismo, apresenta, de 25 de fevereiro a 24 de abril de 2022, a exposição Sala de vídeo: Letícia Parente, no 2º subsolo da instituição. A mostra, com curadoria de María Inés Rodríguez, curadora-adjunta de arte moderna e contemporânea do MASP, reúne cinco obras fundamentais para a compreensão da prática de Letícia Parente: artista, pesquisadora e pioneira da videoarte no Brasil. A exposição se insere na programação já tradicional da Sala de vídeo do MASP, em que se propõe o aprofundamento em produções audiovisuais no âmbito da produção artística.

Doutora em química, Letícia Parente (Salvador, Bahia, 1930 – Rio de Janeiro, 1991) desenvolveu seu interesse pela arte em paralelo ao trabalho científico e começou a se dedicar à prática artística desde a década de 1970, ao migrar de Salvador para o Rio de Janeiro. Em contato com artistas como Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933), Ana Vitória Mussi (Laguna, Santa Catarina, 1943) e Sonia Andrade (Rio de Janeiro, 1935), encontrou na arte uma via para a liberdade de expressão em meio ao contexto repressivo da ditadura civil-militar (1964-85). Em conjunto,
compartilharam experimentações com técnicas diversas, incluindo vídeo, tecnologia nova e ainda pouco explorada na época, inaugurando o campo da videoarte.

A seleção apresenta 5 trabalhos fundamentais para o entendimento da carreira de Parente: Eu armário de mim (1975), In (1975), Marca registrada (1975), Preparação I (1975) e Preparação II (1976). Nestes, a variedade de situações utilizada por Parente expressa o dinamismo e a pluralidade, próprios à prática da artista. Utilizando-se de elementos do cotidiano, como o armário, a linha, a agulha e a fotografia, Parente elaborou campos de experimentações que aproximam a vida íntima às questões da sociedade.

Nas palavras da curadora, tais elementos, associados ao manejo da técnica do vídeo, criam “espaços metafóricos para falar de uma condição humana, feminina e socialmente determinada a viver confinada sob parâmetros estabelecidos por um sistema patriarcal, ditatorial e restritivo. A metáfora pode ser estendida à representação de uma situação política específica que restringia direitos civis da população, encarnada pelo ponto de vista de uma mulher na intimidade de seu lar.”

Em Marca registrada, emblema da videoarte no Brasil, a artista registra a si mesma costurando na sola de seu pé a frase: MADE IN BRAZIL, aludindo ao caráter de mercadoria instituído no corpo social. Ao expor um processo doloroso em super close em todo o seu tempo e duração, o vídeo é capaz de gerar uma sensação angustiante ao espectador, que dialoga com a vivência de condicionamento do corpo feminino na sociedade patriarcal e em um contexto de pertencimento a um país em plena ditadura civil-militar.

Já em Eu armário de mim apresenta, através de fotografias, os elementos de sua casa e seus filhos, projetando uma sensação de passagem do tempo e da vida através destas imagens. A casa e o corpo constituem dois dos aspectos centrais na trajetória de experimentação de Parente e são meios para a criação de uma poética que se expressa na materialidade.

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