Laura Belém – Anekdota

O Museu da Cidade inaugura, na Capela do Morumbi, a exposição “Anekdota”, de Laura Belém. A artista mineira se vale das histórias sobre as origens do local e desvirtua o sentido de espaço interno e externo, cobrindo de vegetação a nave da capela e reconstruindo a fachada de alvenaria dos anos 1940 no nível do solo.

Ao relacionar de um modo livre a ausência de documentação factual sobre a origem e uso precípuo do local, bem como suas lacunas temporais, Laura promove uma espécie de entropia e reafirma a subjetividade da história: no interior da Capela vê-se o recorte e a reprodução da parede frontal de alvenaria, assentada no chão. Essa arquitetura atravessa a nave central da Capela e sai pela lateral direita, de forma que a torre (o seu duplo) encontra-se na parte externa. O jardim, por sua vez, é trazido para o interior da Capela, ocasionando uma contigüidade entre interior e exterior, como “Adentro” (2012) e “Pampulha” (2002), trabalhos em que realiza ação similar.

O título “Anekdota” vem do vocábulo grego ?ν?κδοτον, que significa literalmente “o que não foi publicado”. O percurso semântico dessa palavra é notável e remete, primeiramente, à Roma justiniana, ao Renascimento tardio, à linhagem dos Médicis em Florença e, por fim, à França do século XVII. Seu deslocamento de gênero historiográfico sem fontes para a atual “anedota” se deve, em grande parte, à língua francesa que, já no século XVII, passou a adotar a palavra nesse sentido.

Tal qual numa anedota, narrativa oral inconclusiva em que coexistem diversos pontos de vista, Laura parece ter a sua história para esse espaço plástico sobre o qual pairam tantas interpretações. Não importa o que digam, nem o que façam: tudo se arruína ou, ainda, tudo se transforma.

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