Kika Goldstein | Casagaleria e oficina de arte Loly Demercian

ÀS PORTAS DA PERCEPÇÃO
José Bento Ferreira

Kika Goldstein aproxima a pintura da percepção do espaço e do tempo. Perdemos aos poucos a capacidade de nos orientar uma vez que somos direcionados por georreferenciamento e notificados por aplicativos. Ao acompanhar com os olhos as séries de pinceladas e descobrir conexões entre formas e cores, seja no interior de cada pintura ou entre as pinturas que compõem o espaço como um todo, restitui-se uma sensibilidade anestesiada pela tecnologia digital.

Sabemos onde estamos graças a uma série de experiências acumuladas. Sobre elas pairam incertezas que atormentam quem exige clareza e distinção. A pintura não minimiza as incertezas, pois produz experiências do pensamento motivadas pela dúvida. A bússola natural representada pelas estrelas não é, para a pintura, composta por objetos visíveis. O norte do trabalho de arte está em toda e em nenhuma parte, habita os interstícios, as relações.

As pinturas de Kika Goldstein foram produzidas sob a impossibilidade de apontar para um norte, de positivá-lo como um ponto cardeal. A partir dessa experiência crítica, a artista compõe uma constelação com obras de outros artistas, idéias filosóficas, memórias e percepções, os muitos nortes que motivam cada um dos gestos que se vê nas pinturas, condensados na intensidade obtida a partir da tinta a óleo com cera de abelha e sublimados no fulgor das cores.

As formas não são voláteis ou diáfanas. São firmes, quase sólidas, mas se sugerem a possibilidade de se consolidar em algo determinado, logo fluem e mudam de direção, desvencilham-se umas das outras, mantêm o espaço aberto. As tonalidades ígneas não se diluem em meio aos verdes, ocres e azuis mais foscos, mas irrompem revelando que a terra não é transparente, pois há sempre algo de opaco no solo que sustenta a realidade humana: “natureza ama esconder-se”, conforme Heráclito de Éfeso. Não se trata do mundo percebido enquanto coisa, mas daquilo que escapa ao entendimento no espaço e no tempo, um mistério que subjaz à experiência.

As principais referências para Kika Goldstein durante a produção das pinturas foram as obras de Hilma af Klint (1862-1944) e Paul Klee (1879-1940). O período coincidiu com as exposições apresentadas pela Pinacoteca do Estado e pelo Centro Cultural do Banco do Brasil em São Paulo. Os dois artistas atuaram no limiar da pintura abstrata, dirigiram-se com igual intensidade para a introspecção e para uma experiência direta da natureza. O período coincidiu também com a gestação de sua segunda filha, Isabel.

Tornar visível o fundo inumano do ambiente humano é uma diretriz comum a Klint e Klee. Kika Goldstein segue esse caminho e encontra na dimensão intersticial das pinturas o que Deleuze chamou de “imagem viva” e que, segundo o filósofo, subjaz a uma “percepção”. Nosso olhar foi adestrado para se deter em coisas, mas na pintura cada forma, cor e pincelada ocorre em sinergia com outras, de modo que se configura uma constelação a cada olhar que se lança no espaço.

A constelação desdobra-se para além das telas ou conjuntos de telas, converte o espaço em obra, o ser em relação.

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