O Natal geralmente é associado ao aconchego, à família e à memória afetiva. No entanto, a nova exposição da artista visual Juliana Galbetti, com curadoria de Catalina Bergues, propõe um olhar inédito e antropológico sobre a data. Intitulada Fora de Época, a mostra acontece de 13 de dezembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026 na OMA Galeria e toma como ponto de partida uma visita à Celebra Show — uma das maiores feiras de atacado da indústria natalina da América Latina.
A partir desse encontro, Galbetti rastreia o rito natalino em seu momento de concepção industrial e comercial, mostrando os bastidores onde árvores, luzes e enfeites são definidos como mercadoria, meses antes de ocuparem as casas e ruas. A mostra acompanha o instante em que fabricantes, importadores, fornecedores e designers determinam as tendências, materiais e linguagens que moldarão o universo visual das festas.
A exposição, um projeto de investigação que lida com a defasagem temporal entre o objeto e o culto, foi contemplada e viabilizada por meio do 6º Edital OMA de Curadoria. A pesquisa que deu origem ao projeto começou com trocas conceituais entre a artista e a curadora no início de 2025, culminando na escrita conjunta da proposta para o edital.
A curadora aponta que “antes de se tornar rito, o Natal é projeto. É tendência em disputa, desejo arquitetado, consumo estético, atmosfera construída. É matéria à espera de se tornar símbolo”. “Meu interesse se deslocou para essa zona liminar, o backstage onde isso é concebido, onde a magia ainda é um protótipo”, explica Galbetti, cuja pesquisa transforma o universo logístico da festa em material poético.
O Natal antes de existir
Fora de Época investiga como o Natal é construído como liturgia contemporânea, com afetos articulados por meio de mercadorias, design e atmosferas controladas. A artista observa como essa estrutura é fabricada num tempo técnico que opera fora do calendário simbólico — o que ela nomeia como “fora de época”. A mostra acompanha o momento em que árvores artificiais, luzes, papéis de presente e padrões cromáticos ainda estão em estado de preparação, antes de adquirirem a dimensão emocional da celebração.
A mostra reúne obras que trabalham três eixos centrais da construção do Natal, pertencentes à série Espírito Natalino, expondo-os como sistemas de organização visual em uma topografia complexa onde os elementos existem como potencialidade. Esses eixos abrangem as luzes (estruturas e sistemas de LED que evidenciam o controle da intensidade luminosa e da repetição coreografada das piscadas); os signos (como enfeites, galhos e árvores que expõem a gramática visual dos símbolos natalinos e o modo como são projetados e combinados); e as embalagens (papéis de presente e padrões gráficos que revelam as lógicas de antecipação do desejo, ressaltando seu papel como mediadora de afeto).
No centro da sala, uma escultura vertical feita com carretéis de luzes de LED articula valor e luminosidade ao alinhá-los do mais barato ao mais luxuoso. No chão, folhas de papel de presente estão empilhadas de maneira a formar um cubo; as folhas, estampadas com fotografias de todas as árvores de natal expostas na Celebra Show, podem ser levadas pelo público, reinserindo essas imagens no mesmo sistema de circulação que as originou.
São esses elementos, frequentemente associados ao imaginário doméstico, que emergem aqui como sistemas de organização do desejo que moldarão o consumo, propondo uma leitura ampliada desse ritual.
A ambiguidade entre consumo e afeto
A frase PEDIDO MÍNIMO, apresentada em luz, funciona como um ponto de inflexão. O trabalho estará instalado na fachada da galeria, reforçando seu diálogo direto com o universo comercial e a rua. O termo, típico das negociações de atacado (B2B), ganha aqui uma dupla ressonância, ecoando simultaneamente o universo comercial e o gesto infantil de pedir ao Papai Noel.
O método de Juliana, que decompõe elementos natalinos até suas unidades mínimas, dialoga tanto com procedimentos conceituais das vanguardas históricas como também busca provocar uma reflexão sobre a ambiguidade entre consumo, desejo, fetiche e promessa que estrutura a festa. A linguagem, assim como os objetos, aparece como matéria moldável que atravessa múltiplos campos: do mercado ao imaginário, da logística à fantasia. Ao instalar esse “antes” no espaço expositivo, a mostra abre uma fresta para enxergar o delicado percurso entre protótipo industrial e memória afetiva.

