José Antônio da Silva | MAC USP

O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) abre a exposição José Antônio da Silva: Pintar o Brasil, no dia 15 de novembro (sábado), às 11h, com lançamento do livro da mostra, pela Editora Martins Fontes. Dando luz sobre a trajetória de um dos nomes mais contundentes da arte brasileira do século 20, muitas vezes considerado o Van Gogh brasileiro, a exposição tem curadoria do espanhol Gabriel Pérez-Barreiro. Chega a São Paulo, com obras adicionais curadas por Fernanda Pitta, após ter passado pelo Musée de Grenoble (FR), como parte da Temporada Brasil-França 2025, em abril, e pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS), em agosto.

Em um momento de grande destaque do trabalho de José Antônio da Silva, vale ressaltar que, dois dias antes da abertura da exposição, no dia 13 (quinta-feira), outras 26 obras do artista poderão ser vistas na galeria Estação, em São Paulo, na mostra Eu sou o Silva, com curadoria de Paulo Pasta.

José Antônio da Silva: Pintar o Brasil

O público encontra no espaço expositivo um recorte que destaca a produção de pinturas e desenhos de Silva – deixando de lado sua criação como poeta, compositor e cantor – organizada por temas frequentes em suas obras, seja em determinadas fases ou durante longos períodos de sua trajetória: a vida caipira, cenas religiosas, paisagens, naturezas-mortas e autorretratos.

No MAC USP, a exposição tem um total de 142 obras, sendo 23 acréscimos provenientes do rico acervo da instituição, o maior do artista no Brasil, formado com doações dos primeiros colecionadores de Silva, entre os quais estão Ciccillo Matarazzo e Theon Spanudis. São 15 pinturas, que, em sua maioria, retratam a vida campestre, como Paisagem rural e trabalhador com enxadas (1948), a dupla Algodoal (1953 e 1972), Boaida descansando no mangueirão (1956), Batendo algodão (1975) e Algodoal com troncos decepados (1975).

Também foram adicionadas telas na seção dos retratos, como dois autorretratos realizados em 1973 e outro em 1976; de objetos inanimados, como Natureza morta em pontilhismo (1951) e Vaso de flores (1976). Cristo Redentor na Baía de Guanabara (1980) e Tempestade pela morte de Jesus (1977) estão entre as obras de cunho religioso. O público poderá apreciar, ainda, a significativa tela Enforcados da Bienal, da década de 1990, que representa o descontentamento do artista contra críticos de arte que rejeitaram seus trabalhos para a Bienal de São Paulo.

Além das pinturas, a versão paulista da mostra ganha um novo núcleo de obras dedicado aos trabalhos sobre papel do artista. Nele, está o primeiro livro de José Antônio da Silva, Romance da minha vida, composto por 76 desenhos, que será exibido de maneira inédita, na íntegra, além de outros desenhos avulsos, feitos nas décadas de 1940 e 1950, principalmente de cenas rurais.

“Neste livro, o artista faz de si próprio o protagonista e narrador, construindo uma narrativa em que é simultaneamente sujeito e agente da história. O relato em primeira pessoa — da vida rural à descoberta da arte, do trabalho na roça às primeiras exposições — forja uma imagem pública de artista que se emancipa pela força do próprio talento”, explica Fernanda Pitta, curadora do MAC USP e especialista na obra de Silva. “Os desenhos revelam os perigos da vida rural, o trabalho, o movimento, expondo uma crítica à modernização. Suas composições não possuem perspectiva naturalista, privilegiam o gesto e a ação, e traduzem a tensão entre o tempo humano e o da máquina, entre o campo e a cidade.”

De acordo com o curador Gabriel Pérez-Barreiro, a criação de personagens, para Silva, é uma parte importante do seu trabalho: “essa imagem de caipira, da pessoa que vive no campo, a vida intensa, a juventude, os primeiros namoros, a ida para a cidade. Ele vai criando toda essa narrativa nos desenhos do livro, por exemplo”, diz. “José Antônio da Silva produziu uma obra alegre e provocadora ao longo da sua trajetória. Foi capaz de traduzir a vida social e religiosa intensa de sua comunidade, enquanto criava composições visuais que transbordam energia e inventividade”, afirma. “De muitas maneiras, ele personificou o caipira para o público da cidade de São Paulo. Suas roupas, seu sotaque, sua música, sua autossatisfação, tudo refletia essa classe social orgulhosa, mas subalterna.”

O interesse do artista pela vida no campo e seu cotidiano, influenciado por sua origem rural, fez com que suas obras se tornassem registros do processo de modernização vivido no Brasil ao longo do século 20. De acordo com Emilio Kalil, diretor da Fundação Iberê Camargo e Comissário Geral da Temporada Brasil-França 2025, o olhar de Silva não é contemplativo ou estático, pelo contrário: “suas pinturas são caracterizadas por intenso dinamismo e todo o seu universo parece estar em constante trânsito. Boiadas passam, florestas são derrubadas, campos de cultivo são abertos, se diversificam, urubus espreitam a tudo e todos, personagens realizam ações aparentemente banais em um mundo de grandes turbulências, com olhares à espreita e paisagens em constante transformação.”

Pintar o Brasil também conta com uma cronologia reduzida, criada por Fernanda Pitta, e com o curta-metragem Quem Não Conhece Silva?, de Carlos Augusto Calil.  O livro produzido pela Martins Fontes reúne todas as obras expostas e os textos utilizados nas publicações das mostras anteriores – escritos por Pérez-Barreiro, por Pedro Schuller e Vanini Amaral – com a novidade de um texto de Pitta.

A mostra é realizada com patrocínio da Petrobras e do Banco do Brasil, e apoio do Ministério da Cultura por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet.

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