Jorge Mayet | Casa Seva

Foto por Carolina Pileggi

A Casa Seva, espaço dedicado à arte contemporânea e ao diálogo entre cultura e sustentabilidade em São Paulo, apresenta em parceria com a Galeria Inox, partir de 27 de novembro, a primeira exposição individual de Jorge Mayet na cidade: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, com texto feito por Paula Borghi. A mostra reúne pinturas e esculturas que articulam paisagem, deslocamento e pertencimento, criando um território poético entre lembrança, história e imaginação.

Nascido em Havana, Mayet deixou Cuba nos anos 1990, mudando-se inicialmente para a Itália e, depois, para a ilha de Maiorca, onde viveu por mais de três décadas antes de se estabelecer no Rio de Janeiro. Esse trânsito entre territórios como o Caribe, Mediterrâneo e a América Latina, tornou-se eixo central de sua obra, que revisita suas memórias cubanas a partir da distância. Árvores que flutuam, fragmentos de terra suspensos e casas que se transformam em seres híbridos surgem como metáforas de uma ilha que nunca o abandona, mesmo quando ele a deixa para trás.

Reconhecido por seu rigor técnico, o artista desenvolveu uma prática que se desdobra entre pintura, escultura e instalação. Suas imagens, por vezes tomadas como fotografias, revelam precisão minuciosa, mas também um campo simbólico impregnado de espiritualidade. Entre seus signos recorrentes estão o flamboyant, árvore associada a rituais afro-caribenhos; a palmeira-real-de-cuba, presente no escudo nacional; e o bohío, casa camponesa vernacular que Mayet reinventa em múltiplas moradas possíveis, como se sua arquitetura fosse também organismo vivo.

Essa fusão entre natureza e cultura constitui a espinha dorsal de sua pesquisa. Nas obras, raízes expostas revelam aquilo que nos ancora, ilhas pairam no ar como territórios afetivos, árvores solitárias se tornam portais entre mundos. Ao recriar a paisagem de sua terra natal como corpo espiritual, o artista anuncia a natureza como força divina, origem e sustentação de tudo aquilo que chamamos de cultura.

Em “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, Mayet reafirma a potência de criar, pela arte, o lugar onde se habita, um espaço que não é geográfico, mas sensível. Suas obras funcionam como pequenas terras possíveis, flutuantes, móveis, capazes de carregar consigo o gesto ancestral de quem vive entre mundos e reinventa suas raízes.

Com trajetória internacional que inclui exposições em cidades como Londres, Hong Kong, Nova York, Rio de Janeiro, Palma de Mallorca e Moscou, além de presença em coleções como a Saatchi Gallery e o MAD Museum, Jorge Mayet apresenta na Casa Seva um recorte maduro e profundamente simbólico de sua produção. Um convite a olhar para a ilha, real, imaginada, lembrada e ao entender que ela, de algum modo, sempre nos olha de volta.

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