João Trevisan | MAS/SP

As pinturas evocam os céus noturnos enquanto as esculturas fazem referência aos trilhos que cruzam a terra”.

Museu de Arte Sacra de São Paulo – MAS/SP, instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, exibe a exposição “Corpo e Alma”, do artista plástico João Trevisan, sob curadoria de Simon Watson. Composta por trabalhos com técnicas e suportes diferenciados, a exposição apresenta 28 obras criadas nos três últimos anos, com uma seleção de pinturas a óleo, esculturas em madeira talhada e ferro bruto e uma vídeo-performance, registrada em local próximo ao estúdio do artista em Brasília. “Trevisan cria pinturas e esculturas que são meditações de fisicalidade, buscando criar um espaço que ofereça uma profunda contemplação ao púbico”, define o curador. João Trevisan: Corpo e Alma, é a primeira mostra individual institucional do artista e a primeira exposição do projeto LUZ Contemporânea.

A exposição, instalada no sentido horário, começa com os primeiros trabalhos do período – pinturas tão pequenas como livros de orações – e finaliza com os mais recentes – pinturas com dimensões semelhantes a murais. Intercaladas às telas, estão as esculturas. Para João Trevisan, o processo de pintura se assemelha a uma meditação profunda e inclui percorrer, varrer a superfície de cada trabalho mais de 500 vezes até atingir brilho polido. A cor preta, intensa, exibida na série de pinturas “Intervalo”, lhes concede uma qualidade meditativa que parece aludir não só à noite, mas ao cosmos como um todo.

Corpos em Prostração, 2021

“Essas são pinturas que, devido à sua tonalidade densa e escura, pedem vários minutos de observação intensa para simplesmente capturá-las. Elas exemplificam o que podemos chamar de “slow art”, recriando em um idioma secular as condições de contemplação que são comuns nas práticas espirituais. Para alguns, a pintura pode até sugerir orações noturnas”, define Simon Watson.

As esculturas são construídas a partir de peças de ferro descartadas – parafusos, porcas, sucata etc. – e dormentes de madeira encontrados em pátios ferroviários. A qualidade bruta dessas esculturas parece remeter ao sec. XIX quando os trens de carga percorriam a rede ferroviária do Brasil. Em destaque estão grandes vigas de madeira conectadas por dobradiças de ferro; uma pilha organizada em forma de leque de grandes parafusos industriais; e uma pilha de placas de ferro – todas com uma sensual pátina de ferrugem avermelhada que ecoa as superfícies das pinturas próximas.

Como destaque, temos a escultura instalação site-specific de João Trevisan, no jardim interno do MAS/SP, sobre a qual ele diz: “Gosto de pensar nas sete esculturas dispostas de forma ordenada no pátio como sete corpos apontando em direção ao céu, como se estivesse de pé e pedindo permissão para estar naquele lugar monástico”.

Vários aspectos da técnica de João Trevisan se juntam na performance de vídeo de seis minutos da exposição, “Caminhar para acender”. Em um devaneio de uma performance que parece falar poeticamente sobre o material de origem das pinturas do artista, Trevisan é visto primeiro em um trilho de ferrovia, ‘lutando’ com um enorme pedaço de madeira e em seguida, carregando-o no ombro colina acima, onde, ao anoitecer, ele o queima. Para aqueles que se lembram de ouvir trens distantes, essa vídeo-performance atinge diretamente a memória. Mas a obra possui força própria para seduzir a todos. Instalado no Museu de Arte Sacra, ecoa pelos corredores repletos de artefatos do barroco brasileiro e ícones religiosos, para nos lembrar da luta humana e dos anseios espirituais.

A exposição está concentrada nos trabalhos que o artista desenvolveu recentemente durante o período onde pintura e escultura foram executadas simultaneamente. Ao conceber e conceituar essa exposição, Simon Watson buscou inspiração nas comemorações de aniversário de 50 anos da Rothko Chapel (Houston, TX, USA) esperando que a mensagem transmitida por João Trevisan: “Corpo e Alma” seja de profunda meditação e tranquilidade.

Desfechar para Espertar, 2020

Projeto LUZ Contemporânea

Idealizado pelo curador Simon Watson, LUZ Contemporânea é composto por 12 exposições – individuais e/ou coletivas – de artistas contemporâneos a serem desenvolvidas, em parceria com o Museu de Arte Sacra de São Paulo, onde temas diversos oferecerão propostas e desafios aos artistas convidados buscando diálogo conceitual e material com obras do acervo da instituição… ou não! Cada mostra é única em seu próprio universo.

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