João Ferreira | Museu Nacional da República

O artista visual João Ferreira, do Distrito Federal, inaugura no dia 31 de julho, no Museu Nacional da República, a exposição 2020–2021, do limbo ao exagero, uma instalação de grande escala que ocupa a Galeria 1 e sua conexão com o térreo da instituição. Reunindo pinturas de caráter fotorrealista, pixel art, desenhos, objetos coletados do lixo, sons e intervenções espaciais, a mostra, concebida no contexto do período mais crítico da pandemia de Covid-19, apresenta um panorama da pesquisa recente do artista e propõe reflexões sobre precariedade, memória e suspensão do cotidiano.

Entre referências clássicas e contemporâneas, João Ferreira constrói um trabalho singular e não convencional, característica presente em toda a sua trajetória artística. Marcada pela experimentação constante, pela mistura de linguagens e pela perseguição insistente de suas próprias obsessões, sua obra se desenvolve em territórios onde o excesso, a repetição e o estranhamento assumem papel central.

Artism & o transbordamento do ser

Autista com nível 1 de suporte, João incorpora à instalação experiências e comportamentos frequentemente considerados atípicos na sociedade contemporânea, elaborando o excesso como escolha estética e política. As estereotipias típicas do espectro autista são convertidas em processo criativo e método de trabalho — e a mostra convida o visitante a percorrer ambientes construídos a partir de acúmulos, contrastes visuais e sobreposições narrativas. Espero que o público saia perguntando mais do que entendendo, brinca o artista.

João enfatiza, ainda, que a exposição não é um “cantinho de regulação sensorial”. É uma mostra sobre como o neurodivergente pode ser, de dentro para fora: transbordamento, crise, repetição, método, cores que não pedem licença e uma iluminação que distorce os objetos. Não é um ambiente confortável, explica.

Deriva urbana, repetição e a coleta de 1400 caixotes

Inspirado pela reflexão de Albert Camus sobre imaginar Sísifo feliz, o artista, que reside no Núcleo Bandeirante, percorreu diversas regiões administrativas do DF em busca de caixotes de madeira, reunindo mais de 1.400 peças em um gesto repetitivo que dissolve fronteiras entre trabalho manual, arquivo afetivo e deriva urbana. A partir de materiais concretos e elementos simbólicos, suas criações se materializam carregadas de crítica social, espanto — mas também humor e ironia.

2020–2021, do limbo ao exagero rejeita classificações rígidas e propõe uma experiência de forte impacto imagético e sensorial. A mostra reúne interesses diversos do artista, que transitam do surrealismo à sonoplastia kitsch, da pintura ao desenho, do naïf à street art, da astrologia ao fotorrealismo. Imagens, objetos, sons e materiais convivem em tensão constante, criando atmosferas simultaneamente caóticas e íntimas.

Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), João Ferreira traz como referências as obras penetráveis de Hélio Oiticica, especialmente a experiência multissensorial de Tropicália; o humor e a irreverência de Marcel Duchamp; e a estranheza poética de Erik Satie, músico historicamente visto como incompreendido. Seu trabalho também dialoga com práticas contemporâneas ligadas à ocupação do espaço, à cultura visual urbana e à construção de narrativas fragmentadas. Meu trabalho herda essa alegria e essa estranheza, define.

Visitas guiadas e roda de conversa

Como parte da programação da mostra, serão realizadas visitas guiadas com o artista, em datas a serem divulgadas. O público também poderá participar da palestra ARTISM: a engenharia visual no espectro autista, que reunirá a neurologista Dra. Jeanne Mazzi, a neuropsicóloga Dra. Bianca Noronha e o artista João Ferreira em uma roda de conversa sobre arte, neurodiversidade e processos criativos. O encontro contará com mediação da escritora e jornalista Maíra Valério, brunch para os participantes e lançamento do catálogo virtual da exposição.

A realização desta edição do projeto foi viabilizada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).

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