A artista Janaina Wagner apresenta sua nova individual na galeria Sardenberg, em São Paulo, a partir do dia 5 de novembro, quarta-feira. Intitulada Eu sou matéria derretida escorregando do dentro da terra para te contar coisas interiores:, a exposição é derivada da vídeo-instalação Quando o segundo sol chegar / Um cometa nos teus olhos (2025). O trabalho foi exibido no Masp no início desse ano, junto a Curupira e a máquina do tempo (2021) e Quebrante (2024).
Juntos, os filmes formam uma trilogia realizada pela artista entre 2021 e 2025 que parte da rodovia Transamazônica como eixo poético e crítico. Com Wagner, a estrada aparece como uma ferida geológica e política, um símbolo do discurso desenvolvimentista que, em sua obra, torna-se linha de erosão, uma fratura que expõe o subterrâneo das narrativas do progresso e sua ocupação do espaço. A artista contrapõe à monumentalidade da infraestrutura o tempo fragmentado da poeira, do sedimento e do resíduo — elementos que estruturam tanto sua abordagem dos vídeos quanto das esculturas.
Nesta nova mostra, Wagner transporta as operações perceptivas e conceituais de Quando o segundo sol chegar / Um cometa nos teus olhos para o espaço expositivo. O conjunto de trabalhos —esculturas, um desenho e uma performance—, não ilustra o filme, mas o reinscreve sob outra gramática material, como uma espécie de anti-storyboard. Ao produzir os trabalhos com materiais da construção civil (ferro, cimento, latão, estanho, chumbo, tinta asfáltica), Wagner elabora mais uma forma de trazer o universo da estrada que inspira todo o projeto.
“Dispostas no chão, as esculturas recusam a verticalidade da escultura clássica e instauram uma horizontalidade que remete tanto à sedimentação geológica quanto ao colapso gravitacional. Cada forma repousa, mas em estado de latência, como se aguardasse o instante de combustão. Essa tensão entre repouso e energia define o campo formal de Wagner ao mesmo tempo que remetem aos signos imagéticos do filme que inspira e por ele é inspirado”, escreve Sardenberg no texto que acompanha a exposição.
A performance Um cometa nos teus olhos, que será realizada em parceria com o artista Pontogor na ocasião da abertura da exposição, manifesta a passagem da imagem à matéria: um fenômeno térmico que transforma a imaginação em evento físico. O fogo não surge como efeito expressivo, mas como estrutura — um modo de reconfigurar a percepção da forma e reafirmar a instabilidade como princípio vital da obra.
Inspirado livremente na obra de land art Spiral Jetty (Robert Smithson, 1972), e nos livros Autobiografia do vermelho (Anne Carson, 1998) e O arrebatamento de Lol V. Stein (Marguerite Duras, 1964), o projeto propõe uma inversão temporal e cosmológica, em que os vestígios do contemporâneo apontam para o pré-histórico. A artista insere sua pesquisa em um campo que poderíamos chamar de entropismo construtivo — uma forma que se organiza pela mesma lógica entrópica que a ameaça.
Em Eu sou matéria derretida escorregando do dentro da terra para te contar coisas interiores:, Janaina Wagner dá continuidade à investigação que marcou sua última individual no Masp: uma reflexão sobre a imagem como campo entrópico e o tempo como matéria escultórica. Ao reunir cinema, escultura e performance, a artista faz do calor, da gravidade e do colapso os motores de uma poética que questiona os limites entre o visível e o informe, o cósmico e o terrestre, o sólido e o derretido.
A exposição fica em cartaz até o dia 20 de dezembro.

