No dia 27 de novembro, às 18h, a Fundação Athos Bulcão inaugura a mostra “Tudo se transforma em alvorada”, um diálogo entre a produção do artista gaúcho radicado em Brasília Ismael Monticelli e a série de máscaras de Athos Bulcão. A exposição aprofunda a investigação de Monticelli sobre o legado da arquitetura moderna da capital federal, tomando como ponto de partida as narrativas não oficiais que atravessam a cidade. São diferentes camadas entrelaçadas — históricas, místicas, políticas e estéticas — que escapam ao discurso monumental hegemônico e revelam uma Brasília menos rígida, mais aberta a fabulações, desvios e imaginários paralelos. O artista observa como essas tramas ocultas ou marginalizadas criam outras maneiras de experimentar a capital, aproximando-a de um território onde ficções e sensibilidades retrofuturistas ganham espaço.
Com entrada gratuita e classificação indicativa livre para todos os públicos, “Tudo se transforma em alvorada” fica em cartaz até o dia 10 de janeiro de 2026, com visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados, das 9h às 13h. A Fundação Athos Bulcão fica na 510 Sul, Bloco B, Loja 51, Asa Sul, Brasília. A mostra é realizada com o patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).
“Tudo se transforma em alvorada” nasce do encontro entre Monticelli e uma das séries menos conhecidas e mais experimentais de Athos Bulcão (1918–2008): as máscaras. Pela primeira vez, a Fundação abre espaço para que um artista desenvolva um diálogo direto e especulativo com sua obra, reunindo 20 máscaras de Athos, apresentadas ao lado — e, em alguns momentos, entrelaçadas — de novas criações de Monticelli que se desdobram em instalação, pintura, vídeo e neon.
UMA ARQUEOLOGIA VISUAL
A série das máscaras de Athos Bulcão revela uma faceta decisiva e pouco visível de sua produção. Longe do repertório amplamente reconhecido de azulejarias modulares, geometrias construtivas e painéis públicos, essas peças expõem um Athos interessado em misturar materiais, reminiscências e camadas heterogêneas de visualidade. Como observa a crítica e curadora Marília Panitz, autora do texto crítico da exposição, trata-se de “um amálgama (inclusive matérico) de experiências diversas com a visualidade. Criam certa arqueologia idiossincrática, onde aparecem fragmentos de sua memória organizados em referências diversas”.
Essa dimensão experimental encontra lastro no próprio processo descrito por Athos. “Em entrevista, Athos comentou a gênese dessa série, afirmando ter se baseado no último momento do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, com o ‘feto’. Ele também relaciona essas ideias com o que viu no Musée de l’Homme, em Paris, em 1971”, afirma Ismael. E continua: “Sua intenção, segundo o próprio Athos, era criar objetos que brincassem com a antropologia e com a ideia da origem, produzindo máscaras que parecessem feitas de matérias estranhas.” Partindo desse conjunto de referências — do feto estelar de Kubrick às coleções antropológicas parisienses —, as máscaras emergem como uma reflexão sobre origem e finitude. Condensam simultaneamente a imagem do bebê ou do feto e a presença de ossadas e esqueletos humanos, operando como dispositivos simbólicos que negociam os intervalos entre nascimento, morte e evolução.
ATHOS E A PSICODELIA
Monticelli propõe uma leitura que reinsere as máscaras de Athos no imaginário gráfico e cinematográfico que marcou as décadas de 1960 e 1970 — um período em que se intensificou o desejo de traduzir visualmente os processos da mente, de investigar como pensamento, percepção e consciência poderiam ser figurados por meio de imagens.
Essa atmosfera se torna ainda mais evidente quando Monticelli aproxima as máscaras — não apenas da cena final do feto, mas também — da célebre sequência Star Gate de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). Ali, Stanley Kubrick comprime narrativa, corpo e racionalidade em um corredor de luzes, cores e distorções que radicaliza a experiência visual. Críticos da época descreveram a passagem como um transe cromático que substitui o pensamento por êxtase visual, reconhecendo nela um dos momentos mais emblemáticos da estética psicodélica e das experimentações visuais que moldariam a sensibilidade da década seguinte.
É nesse mesmo ambiente cultural que surge a chamada “cabeça pictograma”, ícone do design gráfico dos anos 1970: perfis humanos reduzidos ao contorno, nos quais diagramas, cores e linhas buscam representar fluxos internos, raciocínios e estados mentais. Ao revisitar as máscaras de Athos sob essa chave, Monticelli desloca o gesto modernista para outro registro: a convicção de que a subjetividade pode ser atravessada por fluxos visuais e de que “a cabeça” — seja no cinema, no design ou na arte — opera como um campo simbólico onde interioridade e mundo se interpenetram.

