A artista visual Isabel Marroni apresenta no Museu de Arte do Paço a exposição Tudo Ainda Bruma. Ela desenvolveu o trabalho inspirada no conto Voltar, de Itamar Vieira Junior, o autor do premiado romance Torto Arado. A curadoria é de Anelise Valls.
A mostra, que compreende duas instalações, constrói um percurso imersivo, no qual o visitante é conduzido por estruturas têxteis suspensas, fragmentos e transparências que operam como zonas de suspensão. Lembrar e perder tornam-se movimentos simultâneos.
A primeira instalação corresponde a um grande labirinto de tecidos que ocupa o espaço como uma arquitetura instável. As superfícies translúcidas, marcadas por manchas orgânicas e desenhos que evocam raízes, rios ou veias, produzem um percurso de deriva e desorientação. O corpo atravessa camadas frágeis que filtram luz, visão e distância, como se a memória fosse também uma matéria porosa, impossível de apreender completamente. A obra transforma o caminhar em experiência de busca: cada dobra do tecido sugere um retorno que nunca encontra exatamente o mesmo lugar.
“As 40 pinturas suspensas em nanquim e aquarela acrílica sobre tecido translúcido surgiram como paisagens instáveis, imagens que nunca desejavam se fechar completamente. Suspendê-las no espaço foi uma forma de permitir que respirassem, que fossem atravessadas pela luz, pelo ar e pelo próprio corpo do visitante. Interessa-me esse lugar onde as coisas deixam de ser totalmente visíveis e passam a existir entre aparição e desaparecimento, entre permanência e dissolução”, diz Isabel, referindo-se à primeira instalação.
Ao fundo, ergue-se uma cascata vertical formada por fragmentos de papéis brancos, como um fluxo contínuo de rasgos em suspensão. Se o labirinto convoca o deslocamento horizontal do corpo, essa segunda instalação instaura uma verticalidade contemplativa, como uma coluna de névoa ou vestígio. Os fragmentos brancos acumulam uma tensão entre leveza e densidade. Embora pareçam frágeis, quase evaporando no espaço, eles se condensam em uma coluna monumental, semelhante a uma cachoeira interrompida no instante da queda. A peça cria um movimento paradoxal: ao mesmo tempo em que despenca, também parece ascender.
A chuva de papéis brancos rasgados é construída a partir de gestos repetidos de ruptura e recomposição. Nesse contexto “nasceu” Mãos de Maudigá (Divina), nome que alude à personagem principal do conto do escritor baiano, cuja narrativa trata de questões como memória, ascensão e desaparecimento.
“Penso nela como um corpo de leveza, uma presença que ascende. Seus fragmentos carregam para mim a metáfora do esvaecimento, da passagem do tempo, da fragilidade da matéria e daquilo que insiste em se elevar. Existe nela uma tentativa silenciosa de olhar para cima; não necessariamente em direção a uma ideia religiosa, mas a algo maior que nós, algo que nos atravessa e nos devolve ao mistério”, medita Isabel.
Entrada gratuita


