Iberê Camargo | Fundação Iberê Camargo

Com curadoria de Denise Mattar e Gustavo Possamai, a exposição “Iberê Camargo – O Fio de Ariadne” apresenta 37 cerâmicas e sete tapeçarias de grandes dimensões, obras que não são expostas há cerca de 40 anos e que estão espalhadas em coleções públicas e particulares de Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Acompanham a exposição cartões e gravuras e uma linha do tempo em referência à urdidura feminina que apoiou o trabalho do pintor ao longo de sua história.

Segue “O Fio” – Durante as décadas de 1960 e 1970, além de sua intensa produção em pintura, desenho e gravura, Iberê Camargo realizou trabalhos em cerâmica e tapeçaria. Eles respondiam a uma demanda do circuito de arte, herdada da utopia modernista que preconizava o conceito de síntese das artes; uma colaboração estreita entre arte, arquitetura e artesanato.

Com assessoria técnica das ceramistas Luiza Prado e Marianita Linck, o artista realizou, nos anos 1960, um conjunto de pinturas em porcelana com resultados surpreendentes. Na década seguinte selecionou um conjunto de cartões que foram transformados por Maria Angela Magalhães em impactantes tapeçarias. “Esses trabalhos não apresentados ao público há mais de 40 anos estão espalhados em instituições e coleções particulares pelo país e até fora dele. É, portanto, uma rara oportunidade ver esse conjunto”, destaca a curadora.

A mostra é complementada por uma cronologia ilustrada, chamada por  Denise Mattar de “O Fio de Ariadne”, apresentando algumas das mulheres que marcaram presença na vida de Iberê:

“A imagem do ‘Fio de Ariadne’ surgiu para mim como um insight, como uma referência à urdidura feminina que apoiava o artista, o guia que Iberê usava para sair da estrutura labiríntica de sua própria pessoa e obra. Com assombro, descobri o projeto Dédale, filme e exposição de Pierre Coulibeuf realizados em 2009, na Fundação Iberê. Não estamos, portanto, no domínio das coincidências, mas no das recorrências, dos potentes ecos suscitados pela contundente personalidade de Iberê Camargo – incluindo o prédio de Siza”, diz a curadora.

Na conhecida lenda grega, o herói Teseu consegue se salvar graças à Ariadne, que lhe dá um novelo de lã para guiá-lo no intrincado labirinto de Creta. O mito de Ariadne, que tem inúmeras interpretações filosóficas e psicológicas, mostra também como o apoio de uma mulher pode ser fundamental para a vitória do herói.

As mulheres são apresentadas por meio de fotos, biografias e depoimentos: a esposa Maria Coussirat Camargo; as artistas Djanira, Regina Silveira e Maria Tomaselli; a tapeceira Maria Angela Magalhães; as ceramistas Luiza Prado e Marianita Linck; as gravadoras Anna Letycia, Anico Herskovits e Marta Loguercio; a escritora Clarice Lispector; a galerista Tina Zappoli; a produtora cultural Evelyn Ioschpe; a cantora Adriana Calcanhotto e a atriz Fernanda Montenegro.

“O processo de pesquisa para obtenção de material para a linha do tempo evidenciou a recorrência da invisibilidade feminina. Nos deparamos com a precariedade de fotos e de textos de pessoas como Elisa Byington, Luiza Prado e da própria Maria Angela Magalhães. Mesmo uma personalidade atuante como Evelyn Ioschpe não dispõe de uma biografia de fácil acesso à consulta. A procura por fotos, informações e documentos nos levou a recorrer a arquivos de família e foi complementada por entrevistas em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro”, explica Denise Mattar.

A mostra, organizada numa curadoria conjunta de Denise Mattar  e Gustavo Possamai, responsável pelo acervo da Fundação Iberê, resultou numa exposição que oferece algumas camadas de leitura ao público: apresenta uma faceta menos conhecida da obra de Iberê Camargo; demonstra a qualidade artística de cerâmicas e de tapeçarias – colocando em questão algumas convenções ultrapassadas do circuito de arte – e torna visível a rede feminina que sempre deu suporte ao artista, revelando as vozes de Ariadne.

A exposição “Iberê Camargo – O Fio de Ariadne” está disponível no Google Arts & Culture, neste link.

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