Higo José | Galeria 25M

O artista visual Higo José apresenta a exposição Arqueologia do Desejo, na Galeria 25M, espaço localizado na Galeria Metrópole, em São Paulo. A mostra reúne bordados e esculturas têxteis queinvestigam a sexualidade como dimensão ancestral da experiência humana, aproximando referên-cias da pré-história — como pinturas rupestres, artefatos arqueológicos e esculturas paleolíticas— de questões contemporâneas ligadas ao corpo, ao desejo e ao tabu.

A exposição parte de imagens encontradas em sítios arqueológicos, como as pinturas da Serra da Capivara e objetos atribuídos a sambaquis do sul do Brasil, para questionar os limites entre ritual,erotismo e sobrevivência. Em vez de tratar a sexualidade a partir de uma perspectiva moral oucontemporânea, o trabalho desloca o tema para um território simbólico mais amplo, onde práticassexuais aparecem integradas à vida coletiva, espiritual e material.

Os bordados presentes na mostra, todos realizados em tons de vermelho, apresentam figuras inspiradas em grafismos rupestres e cenas de acasalamento. Duas dessas obras ocupam a vitrine doespaço, tornando visível ao ambiente urbano imagens que ainda hoje carregam tensão social ecensura simbólica. Já as esculturas têxteis evocam artefatos ambíguos, situados entre objeto ritu-al, relíquia arqueológica e símbolo sexual.

Entre os trabalhos expostos, destaca-se um conjunto de esculturas fálicas inspirado em objetos encontrados em sambaquis, além de uma grande peça suspensa que remete simultaneamente auma estalactite e a uma forma anatômica. A mostra transforma o espaço expositivo em uma es-pécie de caverna simbólica, onde corpo, arquitetura e paisagem se confundem.

A materialidade ocupa papel central na pesquisa do artista. As esculturas são construídas a partir de espuma revestida por barbante, criando superfícies macias e orgânicas que contrastam com oimaginário pétreo normalmente associado à arqueologia. O vermelho intenso presente nas obras eno carpete do espaço expositivo remete tanto à carne e ao sangue quanto aos pigmentos mineraisutilizados nas pinturas rupestres.

Sem pretender reconstruir fielmente o passado, Arqueologia do Desejo propõe uma reflexão sobre as projeções contemporâneas lançadas sobre a pré-história. Ao aproximar sexualidade e arqueo-logia, Higo José questiona até que ponto os tabus atuais são construções recentes diante de umahistória humana muito mais complexa, ritualística e simbólica. A exposição conta ainda com textocrítico de Walter Arcela.

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