Helena e Riokai: entre Brasil e Japão, Paris | Galeria Arte132

Riokai, Autorretrato (Jigazō 自画像), 1943

Entre o final do século 19 e início do 20, Paris vivia a efervescência da arte com exposições de Cézanne, Gauguin, Picasso, Kisling, Lautrec, Utrillo e Bonnard. Nesse contexto, dois universos completamente distintos se encontram: o da brasileira Helena Pereira da Silva e do japonês Riokai Ohashi. Ambos foram atraídos pelas saídas aos bairros ermos da capital francesa com a finalidade de pintar. Essa união gerou um casamento e uma arte que absorveu todos esses elementos. Refletindo essa atmosfera por meio pinturas, desenhos e álbum de fotografias, a exposição Helena e Riokai: entre Brasil e Japão, Paris abre no dia 8 de novembro na Arte132. A curadoria é de Madalena Hashimoto Cordaro e Michiko Okano .

A pintura de Helena Pereira da Silva (1895 -1966) tem uma forte impressão diante de cores intensas e pinceladas maduras, aplicadas em composições de motivos tradicionais como paisagens, retratos e naturezas-mortas, além de características orientais. Já Riokai Ohashi (1895-1943) foi mais um artista que buscou a ponte entre as tradições do Oriente e as inovações das vanguardas europeias, transitando entre mundos e culturas diferentes e distantes.

Helena foi filha de Oscar Pereira da Silva, pintor de obras que retratam momentos marcantes da história brasileira. Já Riokai cresceu em Formosa, na época o local era uma colônia japonesa. Paris foi crucial para o lado pessoal e artísticos de ambos. Helena e Riokai se conheceram na Académie de la Grande Chaumière em janeiro de 1929, casaram-se em 1933 e a exemplo de seus compatriotas, e de tantos outros artistas de todas as partes do mundo, buscavam na Cidade Luz uma formação profissional e um espaço de liberdade possível.

Madalena Hashimoto Cordaro e Michiko Okano enfatizaram características das obras dos artistas. “Acreditamos que “sentimento” e “cotidiano” são relevantes para analisar as obras ao modo yoga de Riokai e seus colegas que saíam às ruas de Paris para pintar cenas em lugares ordinários que geralmente passam despercebidos. Suas obras não retratam o espaço citadino de forma fiel ao que os olhos enxergam – o que nunca foi o objetivo da arte tradicional japonesa – mas transmitem certo sentimento, no seu caso, certa leveza, suavidade, delicadeza e, muitas vezes, melancolia. Helena produziu obras que passam à deriva do modernismo brasileiro, ou dos ismos europeus e mesmo japoneses, e se conectam à tradição aprendida do pai, ainda que em tom bem menor, sem a épica grandiosa de temas e a gravidade de paleta. Assim como Riokai não se inseriu na corrente principal de artistas de seu país”.

Cerejeiras e mulher de quimono, 1947. Helena

A arte lhes proporcionou posição e sustento para o casal após o casamento em 1933 e a decisão de morar no Japão. Apontam alguns pesquisadores o sacrifício de Helena em trabalhar como instrutora de piano, consultora e designer de moda ocidental, palestrante e importadora de bonecas e tecidos franceses, para que Riokai continuasse pintando sem preocupações. Entretanto, Helena nunca abandonou a pintura. Em 1940, o casal viaja para o Brasil e à Argentina em uma missão de propaganda do Japão. Durante todo o trajeto, os artistas fazem exposições e pinturas em diversas cidades.

Riokai faleceu cedo, em 1943, no Japão, e Helena volta ao Brasil em 1949, após 16 anos de ausência. Ela enfrentou dificuldades em se adequar ao meio artístico paulista. Foi, afinal, acolhida pela comunidade nipo-brasileira, que a fez sair de seu refúgio imaginativo em seus últimos anos, em Campinas.

“A exposição apresenta um significativo conjunto de obras dos dois artistas, formado ao longo de alguns anos por meio de cuidadosa garimpagem em leilões e aquisições de colecionadores. A história do casal Helena e Riokai Ohashi é uma verdadeira saga dos deslocamentos e múltiplas identidades culturais característicos do século 20, bem como a singularidade e a importância de suas produções artísticas”, destaca o museólogo Marcelo Mattos Araújo.

O principal pilar da galeria Arte132 é rever a história da arte nacional e esse olhar continua com a nova exposição. “Helena e Riokai refletem a História do Brasil e do Japão no período de suas vidas. Repetir que o Japão foi é fundamental no passado, presente e futuro do Brasil é repetir o óbvio. Na mostra, Riokai pinta a óleo, mas seus valores são japoneses. Helena carrega para o Japão sua linhagem brasileira e sua educação francesa. Juntos vivem uma verdadeira história de amor, de mútua dedicação e admiração, entre artistas, para toda a vida”, ressalta Telmo Porto.

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