Gretta Sarfaty | IAB

Intimidade familiar, trivialidades e reconexão após um longo período de afastamento. É deste enredo que nasce a produção recente da artista greco-brasileira Gretta Sarfaty. Ela extrai da banalidade dos dias uma perspectiva existencial de continuidade, reflete sobre sua origem e sobre o lugar que ocupa no seio familiar. O desfecho da história pode ser visto na exposição Reconciliações, individual que a artista exibe a partir de 1 de dezembro, no IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil, com realização de Luli Hunt.

Após mais de três décadas fora do Brasil – período em que Gretta viveu entre Nova York e Londres – o resgate familiar revela a intimidade de um convívio marcado por encontros e turbulências, principalmente na relação da artista com sua mãe. Do mergulho no passado, Sarfaty emergiu com séries de fotos antigas de sua família – principalmente as que registram a mãe -, como numa tentativa de lidar com suas próprias cicatrizes.

“Nesses trabalhos emergem o afeto, expressão relevante e substantiva de sua poética atual”, pontua Fábio Magalhães, curador da mostra.  É a forma que artista encontrou para ressignificar suas memórias, ideia recorrente na série Mãe Impersonificação (2019), que traz registros de gerações em volta da mesa, e Reconciliações (2019), conjunto homônimo à mostra, que traz imagens fotografadas no dia a dia, retiradas do esquecimento e da brevidade do cotidiano. Fotografias retrabalhadas pelo artista no computador e transportadas para tela com acréscimos de pintura, grafismos e colagens.

A exposição reúne, também, The Myth of Womanhood (2001), composta por autorretratos em momentos íntimos triviais, como no ritual de se maquiar, e Youth Versus Gravity (2005), que traz registros de férias em família: a artista fotografa seu neto, expondo as particularidades familiares e a convivência das relações.

Em ambas, Gretta desenvolve sequências e desdobramentos de uma única imagem fotográfica que, ao ser repetida em série, cria efeito caleidoscópio. “Ela retrabalhou conceitos de criação digital estabelecidos pelo filósofo norte-americano Timothy Binkley e, partir disto, explorou possibilidades de espelhamentos a fim de ampliar o campo de visão das imagens nas matrizes fotografadas e tirou proveito dos efeitos de contraste e de densidades cromáticas para acentuar o efeito caleidoscópico”, explica o curador.

A intimidade é uma constante na obra de Gretta Sarfaty. À contragosto de sua família, ela iniciou ainda muito jovem no circuito das artes plásticas e logo se destacou como artista de vanguarda, com trabalhos em que usava o corpo como suporte e linguagem.

No início da década de 1970, já mãe de três filhos, em um Brasil que atravessava as represálias da ditadura militar e via crescer movimentos pela libertação sexual e lutas de gênero, Sarfaty dava vida à uma obra intensa, disruptiva e singular, associada principalmente à Body Art e ao feminismo. Conviveu com Cildo Meirelles, Artur Barrio e Rubens Gerchman (1942-2008), entre outros expoentes da arte contemporânea, propôs novos suportes e formatos para expor seu trabalho e buscou a emancipação de amarras sexistas impregnadas na época.

Em meados de 1980, em meio à sua ascensão artística – e às desavenças familiares – a artista muda-se para Nova York e intensifica os experimentos que tomam o corpo como suporte e a intimidade como linguagem. É nessa fase que seu trabalho ganha espaços em instituições mundo afora, a exemplo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, a portuguesa Fundação Calouste Gulbenkia, o Palazzo Dei Dei Diamanti, Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), e outros.

Mas se antes o corpo e sua intimidade eram atrelados às suas questões individuais, agora, revelam-se espaços de reconstrução de laços, têm necessidade do outro, já não se expressam sozinhos.

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