Gertrudes Altschul | MASP

Filigrana, sem data | Comodato MASP Foto Cine Clube Bandeirante| FOTO: Eduardo Ortega

O MASP inaugura, em 27.8.21, a exposição Gertrudes Altschul: filigrana. A curadoria é assinada por Adriano Pedrosa, diretor artístico no museu, e Tomás Toledo, curador-chefe na instituição. Em cartaz até 30.1.22, a mostra irá reunir 64 fotografias, em ampliações vintage, que cobrem os curtos, mas frutíferos dez anos de produção da artista, que atuou de 1952 a 1962.

Gertrudes Altschul foi uma figura pioneira no contexto da fotografia modernista brasileira: fotógrafa mulher em uma época em que as câmeras portáteis começavam a se popularizar e em um cenário ainda dominado por homens. Embora bastante reconhecida no meio fotográfico no país, sua obra permanece celebrada apenas em círculos especializados, sendo raramente publicada e exibida. Ela integrou o Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), que gestou a primeira leva de fotógrafos modernos em São Paulo, fundadores da chamada Escola Paulista, da qual foi uma das principais expoentes. Suas temáticas centrais foram a arquitetura moderna brasileira e os motivos botânicos, sobretudo as folhas.

O MASP possui em sua coleção 12 fotografias vintage de Altschul que estarão na exposição, parte do Comodato MASP FCCB, que foram apresentadas no museu pela primeira vez na mostra Foto Cine Clube Bandeirante: do arquivo à rede, em 2016, curada por Rosângela Rennó. O Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA também possui 12 fotografias vintage em sua coleção e obras da artista estão na exposição Fotoclubismo – Brazilian Modernist Photography, 1946-1964, organizada pela curadora Sarah Hermanson Meister e pela assistente curatorial Dona Ostrander, em cartaz até setembro deste ano na instituição estadunidense. Uma foto de Gertrudes, aliás, é capa do catálogo do MoMA sobre a exposição.

A abertura coincide com a de Maria Martins: desejo imaginante, sobre uma das figuras mais instigantes da arte moderna brasileira. A curadoria é de Isabella Rjeille, curadora no MASP, e a curadoria adjunta é de Fernanda Lopes, Casa Roberto Marinho – a instituição carioca é parceira do museu neste projeto.

Neste ano, o MASP, guiado pelo tema das Histórias brasileiras, terá exposições exclusivamente de artistas mulheres. No mesmo dia, 27.8, o museu abre a Sala de vídeo: Zahy Guajajara, com curadoria de Adriano Pedrosa, e Acervo em Transformação: doações recentes que reúne 14 obras de artistas incorporadas à coleção do museu e expressa o trabalho contínuo que tem sido realizado com o objetivo de fortalecer a presença de mulheres no acervo. A curadoria é de Adriano Pedrosa e Amanda Carneiro, curadora-assistente no MASP.

TRAJETÓRIA
Gertrudes Altschul (Alemanha, 1904 – São Paulo, Brasil, 1962) viveu em Berlim até 1939, quando migrou para o Brasil, junto com seu marido, Leon Altschul, fugindo, como muitas outras famílias judias, da perseguição nazista. Em São Paulo, onde se estabeleceu, fundou com o companheiro uma fábrica de adereços para chapéus – à época, décadas de 1930 e 40, peça fundamental na indumentária. Assim, dividia seu tempo entre a produção de flores e outros ornamentos para chapéus, que eram distribuídas nas lojas de moda, e a prática da fotografia.

Em um primeiro momento, Altschul registrava o cotidiano da cidade, atividades familiares e de seu trabalho, em fotografias editadas em álbuns. No final da década de 1940, começou a se aproximar do Foto Cine Clube Bandeirante – FCCB, grupo que reunia fotógrafos alinhados com movimento conhecido como a Escola Paulista, um dos pilares da fotografia moderna no Brasil. Depois de começar a frequentar as reuniões do FCCB, enviando suas fotografias para avaliação dos membros, em 1952 foi aceita como associada, sendo uma das poucas mulheres do grupo – ao lado de Barbara Mors, Dulce Carneiro, Menha Polacow e Nair Sgterenyi. De fotógrafa amadora, que fazia fotos em viagens de família, Altschul passou a artista que explorava técnicas modernas da fotografia em voga no período.

A produção fotográfica de Altschul estava bastante alinhada com a linguagem da fotografia moderna brasileira, que procurava quebrar os princípios clássicos de composição, explorando aspectos geométricos e abstratos das imagens e fazendo experimentações com jogos de luz, sombra, linhas, ritmos e planos. Os temas principais de suas fotografias eram a arquitetura moderna brasileira e motivos botânicos, principalmente as folhas (uma relação direta com seu trabalho para chapelaria).

“Altschul é um grande exemplo da fotografia moderna brasileira e da chamada Escola Paulista de Fotografia. Suas fotos de arquitetura, tema obrigatório no FCCB, são icônicas e representam bastante esse momento, mas ela também possui uma particularidade: o interesse pela botânica”, explica Tomás Toledo. Mesmo num país com a vegetação exuberante como o Brasil, essa característica não era compartilhada com outros fotógrafos modernos.

A linguagem fotográfica de Altschul era elaborada a partir de técnicas como solarização (que consiste em inverter as tonalidades de preto e branco), construção de pequenos cenários (table top), geometrismos, fotograma (técnica de produzir a fotografia direto na folha de papel fotográfico usando um feixe de luz), uso de ângulos incomuns e enquadramentos fechados, que buscavam a perda da referência do que estava sendo representado. “O mais marcante em sua técnica era o trabalho fino e delicado de edição, recorte e sobreposição de negativos, que revelam a extrema habilidade manual pela qual era ela conhecida”, diz Toledo.

Segundo o curador, ela tinha uma habilidade de enganar o olho, transformar em geometria situações e abstrair o referencial da imagem. Durante a pesquisa para a exposição, realizada em parceria com Isabel Amado, que é a responsável pelo resgate da obra de Altschul e quem faz a catalogação da coleção da artista, foi possível fazer descobertas interessantes – Amado foi curadora da mostra Uma mulher moderna na Casa da Imagem de São Paulo, em 2015, a primeira sobre a fotógrafa. Junto com o FCCB, Altschul fez viagens pelo Brasil visitando locais que poderiam gerar bons temas e fotos. “Encontramos, por exemplo, cenas de uma feira numa cidade de interior e retratos de crianças, trabalhos que revelam a sensibilidade característica de Altschul, e que mostram a sutileza do olhar da artista”, afirma.

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