Gabriela Albergaria | Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP)

Sementes da Amazónia #2, 2016-2019 (detalhe) | FOTO: Jorge Silva

O Museu de Arte Contemporânea da USP apresenta a exposição Para onde agora? Where to now? Aller oú maintenant?, da artista portuguesa Gabriela Albergaria, com obras produzidas a partir da viagem de estudo “Expedição Amazônia: Buscando entender a maior diversidade do planeta”, coordenada pela botânica Lúcia Lohmann (Instituto de Biociências da USP), que percorreu os rios Negro e Branco e suas margens. A natureza tem sido o território de trabalho de Albergaria desde os anos 1990. Uma natureza manipulada, plantada, transportada, hierarquizada, catalogada, estudada, sentida e relembrada através da exploração contínua de jardins em fotografia, desenho e escultura. Nesse sentido, a expedição à Amazônia trouxe um novo campo de observação desse território para a artista em relação aos procedimentos e rotinas no barco laboratório.

As expedições científicas com a participação de artistas são habituais no Brasil desde o século XVIII, buscando registros fidedignos de representações “reais”. “Qual seria o papel do artista-viajante em tempos atuais com uma infinidade de máquinas capazes de registrar imagens e dados com tamanha precisão?”, pergunta Marta Bogéa, curadora responsável e vice-diretora do MAC USP. Ao lado dos cientistas, Albergaria recolhia as plantas, fotografava, desenhava e organizava todo material. “Durante o processo científico de catalogação fui observando que a cor e a forma iniciais das plantas são as duas características que se perdem mais facilmente. Qualquer herbário tradicional apresenta sempre as folhas secas (já com dimensões alteradas pela secagem) e sem a sua cor natural (também devido à secagem). O que eu quis acrescentar foi algo que esse processo não pudesse dar – e por isso fiz o meu próprio caderno de cores e dimensões das espécies”, conta Albergaria. Quando chegou em São Paulo, providenciou moldes das sementes recolhidas e, em seu estúdio em Nova Iorque, e mais tarde em Londres, transformou seus arquivos em peças de arte.

Os dezesseis trabalhos podem ser agrupados em três modos poéticos a partir dos procedimentos utilizados por Albergaria: sementes, que traz os vestígios do material recolhido na expedição; desenhos, que decanta em cores e formas a vivência nas margens dos rios; e matéria, que apresenta uma peça inédita com madeira coletada de podas de árvores em São Paulo e recoberta com barro. “O barro, aqui, é terra que potencialmente se beneficia dos restos das árvores para ser fértil, capaz de ser semeada. E como não reconhecer na peça rastros do trágico imaginário brasileiro recente, o colapso da terra contaminada por minério, barragem rompida que recobriu nossas paisagens: já ruina ou nova germinação?”, observa Bogéa.

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