A Galatea Salvador abre a programação de 2026 com duas exposições paralelas. Na primeira, une-se à galeria Nara Roesler para inaugurar Barracas e Fachadas do Nordeste, coletiva que propõe um diálogo entre Montez Magno, Mari Ra, Zé di Cabeça, Fabio Miguez e Adenor Gondim a partir de obras que retratam paisagem urbana e cultural do Nordeste. E, no espaço expositivo do Cofre, apresenta Gabriel Branco: A luz sem nome, série de pinturas em que o artista aprofunda sua pesquisa que parte do corpo, da luz e da cor como elementos estruturantes da composição. Ambas as aberturas acontecem no dia 30 de janeiro e alinham-se ao calendário festivo da cidade, que celebra Iemanjá no dia 2 de fevereiro.
Gabriel Branco: A luz sem nome é a primeira exposição individual de pinturas do artista paulistano Gabriel Branco (1997, São Paulo). A mostra ocupa o espaço expositivo do Cofre da unidade e reúne 10 pinturas inéditas, realizadas em 2025, com texto crítico assinado por Paulo Monteiro.
Na série apresentada, Branco aprofunda uma pesquisa que parte do corpo, da luz e da cor como elementos estruturantes da composição. Trabalhando com óleo e cera de abelha sobre tela, o artista constrói superfícies veladas e luminosas, nas quais formas orgânicas parecem emergir e, ao mesmo tempo, se dissolver. A pintura abstrata surge como um desdobramento direto com seus trabalhos na fotografia, especialmente no modo como a luz atua como agente de instabilidade e transformação da imagem.
Na abstração, o corpo aparece como referência inicial para o surgimento das formas. Partes de um corpo conformam outro corpo, que se adapta ao formato da tela e se reorganiza como uma espécie de estrutura orgânica. Essas formas, no entanto, não são fixas: ora evocam imagens reconhecíveis, ora se desfazem sob a ação da luminosidade, criando um campo ambíguo entre o abstrato e o figurativo.
Paulo Monteiro comenta em seu texto crítico que “Como toda arte abstrata que se livrou do apego aos argumentos racionais da vanguarda, a pintura de Gabriel é livre, e nessas formas podemos ver o que quisermos ver: um órgão sexual, ou o começo de uma onda, um astro no céu, a luz do sol. Tudo isso está ali presente, pulsando. E, de fato, não se está falando aqui da universalidade da arte abstrata. Estamos diante do avesso dela.”
A geometria também atravessa essa pesquisa. Em trabalhos anteriores, padrões visuais presentes em portões e estampas da periferia de São Paulo serviram como ponto de partida para o uso livre da cor. O triângulo, forma recorrente nesse momento inicial, adquire posteriormente uma dimensão luminosa e quase mística, articulando tensões entre o universal e o específico, entre símbolos compartilhados e experiências culturais situadas no contexto brasileiro.
A luz, no entanto, não atua apenas como elemento formal, mas como força capaz de desestabilizar as próprias formas do quadro. Em alguns trabalhos, a luminosidade incide de tal maneira que dissolve contornos e embaralha referências corporais e geométricas. Essa instabilidade aproxima a pintura da fotografia, outra prática central na trajetória de Gabriel Branco, na qual a luz e o ambiente urbano — especialmente das periferias de São Paulo — produzem camadas múltiplas de significado.
Na sequência de Gabriel Branco: A luz sem nome, o artista realiza uma exposição individual na ARCO Madrid, uma das principais feiras internacionais de arte contemporânea, marcando o início de sua representação pela Galatea.
As duas exposições e a parceria com a galeria Nara Roesler marcam a celebração dos dois anos da Galatea em Salvador e reafirmam o papel de sua sede na capital baiana como um espaço de convergência e articulação no circuito de arte contemporânea. Desde a sua chegada à cidade, em janeiro de 2024, a galeria tem atuado como plataforma de intercâmbio entre artistas, curadores, galerias, agentes culturais, colecionadores e o público, em diálogo com o momento de revitalização do centro histórico de Salvador e de fortalecimento de sua vida cultural.

