Fyodor Pavlov-Andreevich | MAC USP

Para chamar a atenção para a escravidão e o racismo, Fyodor Pavlov-Andreevich faz performance na inauguração de sua exposição. Fotoinstalações e microfilmes das atuações anteriores ficam em cartaz no MAC USP, em São Paulo.
Levar seu corpo ao limite para rememorar a dor e a humilhação daqueles que foram e ainda são escravizados nos dias de hoje. Esta é a proposta do artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich, um dos principais performers da Rússia contemporânea, na série Monumentos Temporários que chegará ao Museu de Arte Contemporânea da USP.
Depois de pré-estreia no Centro de Arte Contemporânea Winzavod, em Moscou, a exposição, agora completa, chega ao público brasileiro com instalações fotográficas, microfilmes (colaboração do videoartista alemão Ilya Pusenkoff) e performance do artista na inauguração. Fyodor Pavlov-Andreevich ficará pendurado a 40 metros de altura, no topo do edifício do MAC, a céu aberto, segurando uma longa faixa que chama a atenção do público para a escravidão contemporânea: a escravidão do pensamento que se dá por meio do racismo. Esta será a última das sete performances que o artista realiza desde 2014 sobre o tema.
Há quatro anos Fyodor Pavlov-Andreevich está imerso em intensa pesquisa sobre a escravidão histórica e contemporânea no mundo, em especial no Brasil. As cenas montadas pelo artista recriam situações tanto históricas quanto contemporâneas. Na primeira performance, por exemplo, Fyodor escalou um coqueiro e ficou agarrado ao tronco, a 10 metros de altura, por sete horas, em referência aos escravos que escalavam as árvores, escondidos na noite, em busca de sementes para contrabandear e tentar conseguir dinheiro para comprar alforria. Na quinta performance, no Rio de Janeiro, caminhou por sete horas com um pesado cesto na cabeça para relembrar uma das humilhantes obrigações dos escravos brasileiros: levar e despejar as fezes de seus senhores no mar. Na sexta atuação, o artista relembrou o caso do jovem de 14 anos, negro, suspeito de furto, que foi violentamente agredido, deixado nu e preso com uma trava de bicicleta a um poste, na zona sul do Rio de Janeiro. De pele muito alva e loiro, Fyodor atou-se a um poste, nu e ficou lá por sete horas e escancarou a distinta reação dos passantes.
Todas as performances realizadas foram captadas em fotos e vídeos e agora compõem a exposição Monumentos Temporários, que traz um olhar do artista sobre o material captado. Sobre a efemeridade da performance, o artista acredita que ela pode perdurar por ainda mais tempo do que os monumentos estáticos. “Não acredito em monumentos eternos. Com o passar das décadas eles perdem a comoção do contexto inicial e se tornam meros elementos arquitetônicos. Acredito em monumentos temporários. Aqueles que existem no espectro de um horizonte temporal fixo, marcados por trabalho físico intenso. Uma estrutura mutável, porém com um senso continuo da energia do momento”, explica Fyodor.
“Para Fyodor, resistir ao risco, físico e psicológico, é ser honesto diante da experiência da performance, respeitá-la em sua integridade”, explica Ana Avelar, curadora da exposição. “Os monumentos temporários são objetos que se constituem de meios diversos – a foto, a performance, o objeto – e não pretendem se fixar na paisagem”, completa.

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