Franklin Cassaro | Simone Cadinelli Arte Contemporânea

Franklin Cassaro, O Fantasma Chinês | FOTO Fernando Souza

Simone Cadinelli Arte Contemporânea apresenta “O Fantasma Chinês”, ocupação feita pelo artista Franklin Cassaro em sua vitrine voltada para a Rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. A instalação integra a exposição “Como habitar o presente? Ato 3 – Antecipar o futuro”, com curadoria de Érika Nascimento, epoderá ser vista até 16 de janeiro de 2021. Franklin Cassaro inaugura, com este trabalho, sua pesquisa sobre a China. A partir da ópera chinesa, suas cores e sonoridades, ele criou uma cena teatral no espaço de cinco metros quadrados da vitrine da galeria, usando símbolos como Velho Sábio, o dragão, porcelana, alfinetes perolados chineses e cédulas históricas de renmimbi (nome oficial da moeda da China, enquanto a palavra yuan, mais comum, é uma unidade de conta, o valor).

“Esta é uma exposição que fala de prosperidade. O objetivo principal é a produção de máquinas de prosperidade através dos atos escultóricos. Não são peças estáticas, se movimentam com o vento”, explica Franklin Cassaro. “A vitrine é visitável: pode ser vista do lado de fora ou penetrar. É um penetrável pensado para causar uma sensação”.

Érika Nascimento escreve no texto que acompanha a mostra que “Cassaro cria uma espécie de teatro dos objetos, dando vida ao Fantasma Chinês, conhecido como Jiangshi, ou mesmo fantasma viajante ou saltador. Um teatro do encantamento, de uma magia tropeçada”.

Com este trabalho, Franklin Cassaro se despede definitivamente de suas “gaiolas”. “Não faço mais gaiolas. Vendi a última para um colecionador que mora em Paris”, conta. “Quero começar uma nova pesquisa com o vôo dos cubinhos”, avisa, aludindo a uma marca de seu trabalho. Os poucos produtos que não vieram da China foram construídos pelo próprio artista, que aprendeu técnicas como a de usar o bambu, buscou aplicar o raciocínio chinês na montagem dos elementos que sustentam os cubos que voam, e estudou caligrafia “para entender como a pincelada é dada e como são construídas as palavras” em mandarim.

As notas chinesas, autênticas, “zero quilômetro” e com certificado de garantia, foram adquiridas em lojas de numismática. Com elas Cassaro fez seus famosos e delicados “cubinhos”, que evoluem no ar movidos pelo vento. “Prosperidade soprada pelo vento”, conta. Treze desses cubinhos foram feitos de cédulas da Segunda Revolução Chinesa, que trazem estampadas o rosto de Mao-Tsé-Tung (1893-1976). Um outro cubo, maior, foi construído com notas da Primeira Revolução, de 1911.

Franklin Cassaro, O Fantasma Chinês | FOTO Fernando Souza

BOA FORTUNA

O artista embaralha conceitos de sorte/azar, correto/incorreto, e brinca com preconceitos com números que não trariam boa fortuna: na China se evita o “quatro”, pois sua pronúncia se assemelha à da palavra “morto”, ao passo que no ocidente é o “treze” o número temido. Cassaro mistura cédulas chinesas reais com moedas-fantasia, como as usadas no “I Ching”, o oráculo chinês que remonta a Confúcio (551- 479 a.C.), que trazem um quadrado vazado. Da mesma forma, pelos fundamentos do Feng Shui, técnicas de harmonização energética de um ambiente, “não se usaria o preto, que, no entanto, é uma cor adequada para o teatro”. “Fiz uma caixa cênica onde o preto tem a função de desaparecer”, comenta. Ele usou ainda luz negra, para destacar os fios de cobre e de pesca que atravessam o espaço, uma alusão também à rota da seda.

O artista convidou sua filha Lara Cassaro, estudante de design na PUC, para ajudá-lo na pesquisa sobre a simbologia do vento, das nuvens chinesas. Ela é coautora de um dos trabalhos: são discos, feitos de caixa de papelão pintadas de preto, a mesmacor usada na parede, onde ela desenhou bordos dourados como se fossem a louça chinesa.

O material usado para construir a caixa onde os treze cubos estão voando “foi estrategicamente pensado: é o eucalipto, introduzido na China no século 19, e que por destruir as espécies nativas virou uma praga pra eles, e está sendo erradicado, com seu plantio proibido”, explica Franklin Cassaro. Ele observa que “por uma incrível coincidência os chineses estão adquirindo propriedades no Brasil para a aquisição de eucalipto, que está sendo direcionado para a China por ser uma árvore boa para a extração da celulose”.

Franklin Cassaro diz que este trabalho é “o início de um projeto, ligando a China ao Brasil”. Ele quer discutir este temor à China, “o fantasma chinês, como o imperialismo chinês, o comunismo, fantasmas que afligem aqueles que não entendem as coisas e têm fantasias”. “Pensei em exagerar este medo, esta xenofobia, esta sinofobia”, diz. “Não que o trabalho seja uma sinofilia, mas trata de não ter medo de fantasmas, daquilo que pode atrair eventualmente má ou boa sorte”, afirma.

Franklin Cassaro, O Fantasma Chinês | FOTO Fernando Souza

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