“Fofoca” nasce do desejo de expandir o diálogo entre as obras de artistas mulheres, em sua maioria de Brasília. Para tanto, a curadora Samantha Canovas selecionou quatro obras de artistas representadas pela Referência e quatro obras de artistas não representadas pela galeria. A curadoria considerou também a inserção mercadológica dessas artistas, que abordam temas que se complementam. “Fofoca” surge das questões emergentes sobre a inserção da obra de artistas mulheres no mercado de arte, seja local, nacional ou mundial, e fortemente influenciada pela leitura de “Um Teto Todo Seu”, ensaio da escritora britânica Virginia Woolf publicado em 1929 que aborda a dificuldade enfrentada por artistas mulheres em encontrar espaço para a produção criativa.
“A intenção é ampliar a discussão sobre essas temáticas presentes em seus trabalhos e apresentar artistas mais jovens a este espaço, com foco na relação mercadológica”, explica a curadora. “Embora o contexto contemporâneo apresente nuances, as artistas não representadas pela galeria são aquelas cujas produções desejo acompanhar e divulgar. A exposição busca, portanto, impulsionar e celebrar a continuidade de suas pesquisas e trabalhos.
Ao longo do processo curatorial, Samantha Canovas observou o surgimento de um diálogo abrangente entre as obras de todas as artistas convidadas para a mostra. A exposição, que inicialmente foi pensada como um conjunto de duplas, evoluiu para uma interação mais fluida, na qual os temas se conectam e se complementam, resultando em um grupo de obras que se relacionam de forma coesa. As temáticas se interligam: a dimensão do corpo, proposto a Clarice Gonçalves e a Fernanda Azou, dialoga com sua pesquisa sobre paisagem, questionando a relação entre corpo e ambiente. Essa abordagem ressoa nas obras de Courinos e de Veridiana Leite, influenciando o uso de cores e a representação da paisagem, muitas vezes com ironia e humor. A presença do corpo também é notável na obra de Camila Soato, e a liberdade poética na de Pamella Anderson. A dimensão animalística, presente nos trabalhos de Raquel Nava e Bárbara Paz, com esta última explorando a paisagem de maneira distinta, evidencia a interconexão das obras.
“Os trabalhos de Camila Soato e Pamella Anderson exploram a contemporaneidade sob a perspectiva do humor, com foco na experiência da mulher lésbica e artista. Suas obras abordam questões relevantes com uma consciência crítica e lúdica, que considero fundamental para a compreensão da contemporaneidade.”
“Clarice Gonçalves e Fernanda Azou, por sua vez, investigam a representação do corpo, apresentando-o não sob um olhar voyeurístico, mas como um corpo feminino universal, inserido em um contexto íntimo e ao mesmo tempo amplo. Elas abordam as experiências do corpo e a naturalização de aspectos que, por vezes, podem parecer grotescos. Essa abordagem se manifesta inclusive na exploração da eroticidade, que, embora incomum, é intrínseca à condição humana feminina.”
“Raquel Nava e Bárbara Paz, por sua vez, dialogam por meio de linguagens distintas. Bárbara utiliza materiais como pelúcia, com uma materialidade têxtil, enquanto Raquel explora a temática animal. Ambas estabelecem uma relação entre o humano e o animal, destacando a organicidade e a interdependência entre as formas.”
“É importante falar do trabalho de Veridiana Leite e de Courinos”, duas pintoras que abordam a paisagem. Essa temática, tradicionalmente associada a artistas homens, ganha novas perspectivas com a visão dessas artistas. Elas reinterpretam o cânone da pintura de paisagem, explorando novas formas de produção, transcendendo as expectativas associadas ao feminino e ampliando as possibilidades artísticas. A paisagem de Courinos e Veridiana se manifesta em uma dimensão mais onírica, com uma dinâmica fluida e, por vezes, abstrata, assemelhando-se a um jogo de cores e formas. A abordagem de Veridiana, com o uso do rosa e a representação das flores, aproxima-se da abstração e da beleza presente no macro, o que também é perceptível nas obras de Camila.”

