Flávia Ribeiro | Galeria Marcelo Guarnieri

Pré-objeto 18, 2017

A Galeria Marcelo Guarnieri tem o prazer de apresentar, entre 22 de maio e 26 de junho de 2021, “Continuum”, segunda exposição individual da artista Flávia Ribeiro na sede da galeria em São Paulo. A mostra, que tem curadoria de Henrique Xavier, reunirá trabalhos em escultura, desenho e fotografia produzidos entre 2014 e 2021. Por mais de quarenta anos, Ribeiro vem examinando as possibilidades plásticas e simbólicas da matéria, construindo um universo de formas e composições que revisita com frequência. Seus objetos parecem estar sempre em trânsito, pulando da terceira para a segunda dimensão, ou da segunda para a terceira. Assumem múltiplas formas de existência, sendo papelão e parafina para logo então ser bronze, ou ser guache para depois ser veludo. Podem articular-se em módulos como peças soltas, o que lhes permite infinitas combinações e também podem pender a partir de pontos de apoio fixados na parede. A exposição incorpora esse espírito metamórfico e se organiza em torno do desejo de provocar novas leituras aos trabalhos produzidos em diferentes períodos através das relações espaciais criadas entre eles.

A Sala 1 recebe apenas duas obras: a fotografia “Duplo Figurado” e a escultura “A Casa”, ambas produzidas em 2014. A imagem do acolhimento nesse primeiro ambiente é direcionada a uma ideia de introspecção, tanto pela imagem de um corpo, que aparece de costas na imagem fotográfica, quanto do objeto que segura em suas mãos, uma peça muito semelhante à própria escultura “A Casa”, ainda sem divisórias. A casa e o corpo, duas arquiteturas que configuram um abrigo, parecem impessoais quando desprovidas de um rosto ou de sua mobília, mas mesmo sendo evasivas de um sentido fixo, tais obras convidam a uma relação, permitindo ao espectador preencher aquela ausência.

A dupla existência da peça de bronze enquanto objeto e enquanto imagem já anuncia operações semelhantes que se repetirão ao longo da exposição: transições entre mídias que provocam aparições e desaparições. Esse é o caso de “Corpo”, peça de veludo e bronze recostada na parede da segunda sala que, embora possua as mesmas dimensões e mesma silhueta de “Duplo Figurado”, já não revela imagem nenhuma além da pátina negra absoluta sobre a superfície do bronze. Entre o desenho e a escultura, há um interesse pela variação de escalas, tanto daquela que pode caber nas mãos, como daquela que ultrapassa a dimensão do corpo humano. No campo tridimensional, é possível pensar nessa relação a partir da maquete, já que a artista se utiliza dela como uma ferramenta prática e poética. Prática no momento da montagem da exposição, pois sua escala reduzida lhe permite dimensionar o espaço expositivo e visualizar as relações entre os trabalhos, poética quando tem sua função de projeto subvertida, adquirindo autonomia enquanto objeto escultórico, como em “A casa” e “Planinhos”.

Sem Título IV, 2018

A Sala 2 é aquela que recebe, além de “Planinhos”, outras obras que exploram as ambiguidades do pequeno formato, como “Existências mínimas” e “Campo para pensar I”. A primeira é uma série de objetos realizados com tocos de madeira, galhos secos de ipê e pedras que a artista encontrou durante os dois meses de confinamento que passou em um sítio, no ano passado. A segunda é composta por uma placa de parafina onde repousam estruturas que remetem graficamente a alguns de seus trabalhos, formadas por arame, fio de cobre, organza de seda, espinhos, sementes e estanho. Ambas dividem uma bancada e assemelham-se a pequenas arquiteturas, sendo resultado de um processo autorreflexivo e ao mesmo tempo criativo, dado seu caráter referencial e serial. Ainda na mesma sala serão apresentados nove desenhos sobre papel manteiga, papel croqui e feltro produzidos entre 2016 e 2021 que também configuram-se como campos para pensar. Devido a sua translucidez, o papel croqui permite à artista trabalhar com sobreposições e rearranjos, aludindo imediatamente à ideia do esboço, daquilo que está em processo de elaboração e portanto passível de mudança.

Desde os anos 2000 Flávia Ribeiro explora o bronze como material de trabalho, mas foi durante os últimos oito anos que dedicou maior atenção a ele, produzindo algumas das peças que integram a exposição e que ganham maior destaque na terceira e última sala. As conotações monumentais e hierárquicas historicamente atribuídas a esse material são perturbadas através de aproximações formais que a artista estabelece entre suas peças fundidas e as irregulares estruturas e superfícies de materiais orgânicos, como gravetos e sementes. Em diálogo constante com a tradição da arte moderna, que tem a estrutura visual da grade como um de seus grandes emblemas, a artista não adere totalmente ao silêncio ou à autonomia que foram associados a esse esquema construtivo, incorporando a matéria orgânica em seu trabalho não só formalmente ou materialmente, mas também conceitualmente, a partir de sua condição efêmera que supõe movimento e transformação, nunca imobilidade.

A Sala 3 reúne, além de peças em bronze e estanho produzidas neste ano de 2021, outras peças em bronze de caráter mais instalativo produzidas entre 2016 e 2018 e “99 desenhos”, um conjunto de desenhos produzidos entre 2017 e 2019 que fazem referência a outras de suas esculturas e que ocupa a totalidade de uma das paredes da sala. A simultaneidade de tempos provocada pelo encontro de todos esses trabalhos na Sala 3 pode ser materializada em “Coisas com tempo”, gravura em metal impressa a partir de uma matriz produzida na década de 1980 e que vem sendo retrabalhada desde o ano passado. O processo consistiu em intervir com água tinta sobre a matriz gravada em diversos tons de preto e em formato de grid, aludindo a ideia de aprisionamento da imagem anterior, e após a impressão da gravura, trabalhar sobre o papel com a tinta Ecoline em cores como o amarelo ouro, o vermelho e o azul.

 

Agende sua visita pelo e-mail info@galeriamarceloguarnieri.com.br

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