Flavia Junqueira – Farol Santander

REVOADA

Flávia Junqueira eleva nosso olhar para encontrarmos balões flutuantes ou revoadas de formas e cores no Farol Santander. Suas ingênuas bexigas de encher povoam seu Brasil de Norte a Sul. Inserem conotações políticas, filosóficas, linguísticas e psicológicas. Eles fogem da casa para prédios tombados e espaços públicos. Cada balão é um ato pictórico que introduz cor, sentidos e significações.

Balões verdes no Minhocão em São Paulo clamam por ecologia; espalhados pelo chão numa sala abandonada, os balões aludem à decadência econômica e à melancolia diante da avassaladora passagem do tempo, murchos lembram a morte, a efemeridade da vida. No Teatro da Paz ou no Teatro Amazonas, pontuam a suntuosidade na miséria e a disputam entre Belém e Manaus pela hegemonia na Amazônia no período áureo da borracha, fenômeno que Freud denominou “narcisismo das pequenas diferenças” como sintoma do mal-estar da civilização.

Os balões de Flávia Junqueira se alinham com os de Daumier e Redon, Tarsila, Guignard e Djanira, Lygia Pape e Rosana Palazyan. Um balão acalenta nossa fantasia de voar. Quem nunca encheu um balão? Nossa memória corporal disso reafirma que ali está o ar de nossos pulmões, metáfora do sopro da vida e da alma.

 

Paulo Herkenhoff, curador
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