Fernando Velázquez | Zipper Galeria

Em “Rituais da complexidade”, quarta exposição individual de Fernando Velázquez na Zipper Galeria, o artista investiga os vieses da inteligência artificial a partir de uma perspectiva decolonial.

Dando continuidade às questões abordadas na exposição “Iceberg” (Zipper Galeria, 2018), na qual chamava atenção para o impacto que os algoritmos de inteligência artificial vêm introduzindo na sociedade, Fernando Velázquez agora atenta para a necessidade de repensar as matrizes que dão forma a tal realidade.

A crença de que a tecnologia seria capaz de resolver todos os tipos de problemas tem nome: tecnosolucionismo. Para o artista, “as narrativas que modulam o imaginário coletivo nesta direção, nem sempre transparecem o quanto tecnologias e dispositivos trazem embutidas as visões de mundo e as ideologias daqueles que as criaram”. E é sobre estes aspectos que Velázquez, agora, se debruça.

A individual inclui uma instalação interativa inspirada no Oráculo de Ifá (Jogo de Búzios). Nela, os visitantes se relacionam com um sistema oracular de inteligência artificial, por meio do envio de mensagens pelo aplicativo Telegram. Ao receber uma mensagem, um algoritmo de inteligência artificial criado especificamente para o projeto replica a matemática probabilística do Ifá, analisa semanticamente a consulta recebida e devolve uma mensagem para o consultante. “Esta tecnologia milenar tem base 8 bits, curiosamente, a mesa base da computação contemporânea. Em um momento de crise civilizatória como o que atravessamos se faz necessário recorrer ao auxílio dos saberes ancestrais para buscar alternativas para a sobrevivência da espécie”, comenta o artista.

Se no oráculo de matriz africana os odus (os relatos que dão conta do destino) abduzidos pelo sacerdote respondem a mitos ancestrais, no oráculo sintético correspondem a uma seleção de textos de diversos autores elencados pelo artista durante sua pesquisa recente. Para o artista a ideia é “estimular o pensamento crítico sobre o impacto da tecnologia no indivíduo e na sociedade como um todo”. Como em outros trabalhos de Velázquez, a luz, entendida como protocolo de comunicação entre dimensões, é parte fundamental da obra: um canhão de laser desenha símbolos geométricos no espaço central da galeria durante as consultas.

Outro corpo de trabalhos se constitui de imagens criadas com o auxílio do algoritmo de inteligência artificial StyleGan. Desenvolvido para a transferência de estilos, este tipo de algoritmo pode ser alimentado com um grande conjunto de imagens e, após análise, consegue reproduzir amostras com alto grau de semelhança do objeto original. Utilizando como referência esculturas gregas e máscaras ritualísticas de diversas regiões africanas, o artista treinou algoritmos de modo a criar imagens de objetos arqueológicos inexistentes. O interesse do artista não está na verosimilhança entre as novas imagens e seus referentes, mas sim nos possíveis desvios da chamada aprendizagem de máquina. “Seria possível abduzir um estilo particular utilizando esta técnica? Quais nuances e matizes, formais e simbólicas, sugere tal hibridismo?”, questiona.

Dentre milhares de imagens criadas pelos algoritmos manipulado por Velázquez, quatro delas foram transformadas em esculturas. O processo compreendeu modelagem digital para dar tridimensionalidade aos objetos originalmente em duas dimensões, impressão 3d e acabamento artesanal com técnicas de restauro. Desta maneira, imagens criadas por um algoritmo de inteligência artificial se materializam em objetos arqueológicos de um passado que nunca existiu.

Velázquez comenta que trabalhar com esculturas gregas e máscaras rituais africanas diz respeito à vontade de “hibridizar” matrizes de pensamento”: “A tecnologia não respeita os limites do território, precisamos de máquinas e algoritmos que operem da maneira a incluir as matrizes culturais de todos os povos do planeta”.

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