Fée | Nós Galeria

FOTO: Lucas Rosin

A maturidade e consciência artística de Maria Fernanda Paes de Barros se revelaram potentes depois de sete anos à frente de iniciativas que resgatam o fazer de nossos povos originários, técnicas artesanais de diferentes regiões que valorizam o capital humano por trás de cada uma delas. Nesta trajetória, Maria Fernanda percebeu a importância de, além de desenvolver móveis, acessórios e peças com resgate cultural, fazer a sua voz presente para o entendimento do seu trabalho. “Aos poucos percebi que para que as pessoas pudessem “sentir” a alma das peças, eu precisava falar sobre elas. Para passar as emoções que eu sentia, precisava mostrar minha cara, enfrentar a timidez e falar com o coração”, diz a artista, que passa a assinar como Fée.

E foi exatamente por esta solidez em seu trabalho e a certeza inata de seu desenvolvimento como artista plástica que a Nós Galeria, localizada na região central de São Paulo trouxe para o seu time a Fée, que realiza a sua primeira exposição individual. Intitulada Passagens, a exposição conta com a curadoria do francês Marc Pottier e tem abertura marcada para 12 de fevereiro.

A exposição nasce inspirada na história do Brasil contada por aqueles que estavam aqui muito antes de nascer a ideia de um país, nos seus saberes e tradições, nos seus sorrisos e nas suas lágrimas, na sua força e resiliência, no seu sonho e na sua luta por liberdade e respeito. “Ela nasce na oralidade, tradição fundamental para as culturas indígenas. Ao falar eles transmitem muito mais que palavras, eles geram emoções. E são as emoções que cravam lá no fundo da alma e não permite que a história seja esquecida” diz a artista. Com “Passagens”, a primeira exposição individual da Maria Fernanda Paes de Barros na Nós Galeria, a artista oferece aos espectadores anos de reflexão. São obras que se enquadram perfeitamente no século XXI. Elas não poderiam ter sido vistas ou compreendidas antes. Talvez sociológica, seu conceito nos faz olhar para o passar do tempo, mas também para a herança indígena. A artista utiliza materiais comuns que evocam “O louvor do solo”, as Matériologies ou as Texturologies do grande teórico francês da Art Brut, Jean Dubuffet (1901-1985)”, explica o curador de arte contemporânea Marc Pottier.

Na expografia, o visitante vai perceber uma sequência na criação das obras que segue a evolução dos sentimentos e percepções da artista sobre sua vivência e aprendizado junto ao povo Pataxó, que conheceu no Sul da Bahia em 2020. Foi neste momento que ela desenvolveu, entre outras peças, a obra Passagem, exposta em 2021, na exposição Orgânico, na 4a Circular Arte na Praça Adolpho Bloch que também teve curadoria de Marc Pottier.

Na primeira parte da exposição, chamada Passagem pela História, estão 3 obras: Essência, Resistência e Interlocução. Nelas, Fée rememora as suas primeiras impressões ao chegar na aldeia Pataxó, além de experiências no dia a dia com as pessoas da comunidade. Para adentrar às terras Pataxó, a artista se desnudou de tudo, permanecendo essência. “Meu corpo despoja-se de tudo que não é essencial, abrindo espaço para absorver o que tocar o coração” e isso revela-se na obra Essência. Na obra Resistência, Fée evidencia o sofrimento que os povos originários passam ao longo dos séculos, mas não desistem de lutar pela sua sobrevivência. Já na obra Interlocução, a artista demonstra a sutil harmonia entre o ontem e o hoje nas aldeias, onde os moradores absorveram o necessário para coexistir, se adaptando ao mundo atual sem perder a essência e a identidade.

FOTO: Lucas Rosin

Outra fase da exposição é Passagem para a Vida, na qual as obras Existência e Balanços Kaupüna demonstram uma nova história para um tempo que deseja que o futuro exista. “Estas obras revelam uma somatória de vidas, histórias, tempos e passagens”. Em uma das paredes, uma pintura corporal realizada por Arassari Pataxó, da aldeia Barra Velha, no sul da Bahia. “A exposição não estaria completa sem a presença dos traços marcantes que resistiram ao tempo e às inúmeras passagens. Traços repletos de significados que vestem corpos que com eles jamais estarão nus, mesmo que nossos olhos culturalmente atrofiados não nos permitam perceber”, explica a artista.

Com os balanços Kaupüna direcionados para a pintura de Arassari, a artista convida o público a fazer uma pausa, um encontro com o seu eu para, a partir daí, mergulhar no nós, respeitando cada diferente detalhe sem nunca deixar de reconhecer a si mesmo.

Em sequência, uma parede com composições feita com fotos das séries Barro, Ritual e Conexões complementam o conjunto, que terá intervenção da artista com cores e outros materiais.

Na Passagem entre Tempos, as obras Respiro e Sobre(a)Vida, é evidente a ideia de demonstrar a vida que insiste em existir apesar e através dos muros impostos. “Vida que insiste, que persiste, que abre uma janela quando lhe fecham todas as portas”. Como um manifesto vivo, Fée demonstra a sua vocação em puxar o espectador para a alteridade. “Estamos aqui e continuaremos aqui. Somos luz na escuridão. Somos os guardiões das sementes da vida”. Esta mensagem é uma constante a cada passo dado pela artista em terras Pataxós. ” Não importa o fogo, não importam as cinzas, permanecemos firmes em nossa missão de proteger nossa mãe Terra e nossos irmãos”.

Além das obras em sua maioria produzidas com barro, madeira, penas e outros materiais, a artista ainda explora a fotografia como registro de uma história cultural em constante movimento. Há ainda uma nova leitura para o que já foi considerado opressor e agora ganha um significado de vida fértil: na obra Nós, enxadas que antes eram usadas em trabalhos forçados pelo homem branco hoje encontram descanso em um solo fértil onde os saberes ancestrais e atuais se encontram, se abraçam e se somam. “Só haverá futuro se houver união, se a soma for feita com respeito à essência de cada um, se entendermos que somos filhos da Terra e sendo assim, somos todos irmãos”.

“A Exposição Passagens chancela esta nova fase de Maria Fernanda Paes de Barros, não como uma nova artista, mas uma artista que, ao longo dos anos, vem se compreendendo como agente transformadora de novos conhecimentos, mas de forma inconsciente dentro do universo da criatividade”, complementa Beth da Matta, da Nós Galeria.

Compartilhar: