Fábio Baroli | Zipper Galeria

Muito conhecido pelas pinceladas marcadas e pelo domínio pictórico, sobretudo do chiaroscuro, o artista mineiro Fábio Baroli vem transferindo, há algum tempo, o protagonismo em suas pinturas, da figura humana para a paisagem. Apropriando-se de temas e conceitos ambientalistas, o artista propõe uma reflexão sobre o especismo, o antropismo e a relação do homem com o meio. O título da sua segunda exposição individual na galeria Zipper, “HOTSPOTS – Memória, imaginação e resistência”, muito bem representado pela composição das obras, faz alusão a regiões de singular biodiversidade e que, ao mesmo tempo, sofrem com constantes ameaças de extinção.

A exuberância dos trabalhos reproduz, em proporções reais, algumas espécies endêmicas da flora do Cerrado e traz consigo reflexões sobre a paradoxal relação humana com aquilo que é substancial, para sua existência, bem como sobre as relações de dominação e poder do capital e da terra.

A escolha do bioma vem não só da influência e da memória do lugar de origem do artista, mas também do contexto de obliteração em que o Cerrado, segundo maior bioma brasileiro, vem passando desde o período colonial. A partir de então, não só ele como demais regiões de hotspots brasileiros passam por um incansável processo de devastação, que tem sido agravado pela flexibilização e negligência de políticas ambientais que atendem ao agronegócio e submetem o país à condição de subserviência e de entreguismo ao estrangeiro.

Não por acaso, Baroli apresenta uma mudança de técnica na preparação de suas telas, com fundos à base de polímeros transparentes, os quais nos permitem visualizar o algodão do suporte. Ele, que até então se utilizava do gesso cré como base para a pintura, nos conduz agora para o diálogo sobre as influências antrópicas nos espaços naturais, já que a monocultura do algodão é uma das atividades agrícolas que mais (des)ocupam áreas de Cerrado no Brasil.

“HOTSPOTS – Memória, imaginação e resistência”, trata-se de uma exposição demasiadamente significativa para o movimento de interlocução entre a arte, as ciências humanas e as ciências naturais, pois nos coloca defronte às relações do homem com o uso e o manejo da terra, com a sua subsistência e, também, com a sua interação com outros seres. A partir dessa imersão, temos a chance de descobrir que permeamos ora no excepcionalismo humano, ora na perversidade, uma vez que, por mais que saibamos dos prejuízos que causamos ao meio, ainda assim insistimos em nossa autodestruição e na aniquilação de vidas primordiais à nossa sobrevivência.
A composição dos buritis na parede, sugerindo as formações de veredas, a grandiosidade das obras, as características industriais das bobinas de tecido acomodadas no chão, e a forma como o artista preenche o espaço expositivo e a imaginação do observador nos convida à epifania subalterna de nós em relação às árvores. Ao mesmo tempo, nos leva a provar a miscelânea de sensações que estão relacionadas às nossas competências e aptidões, uma vez que estamos diante de uma produção artística, algo essencialmente antrópico.

É certo que a exposição em questão nasce do desdobramento da série “Selva-Mata”, a primeira série de pinturas de Fábio Baroli que representa o “retrato da paisagem”. Nua e crua. Tal qual as cores primárias que utiliza. Agora, com a representação de um novo bioma, e com muito mais apropriação do lugar, o artista mantém o uso do magenta e do amarelo, não só representando a pureza das cores, como também a lucidez de uma paisagem viva. Tão viva que, durante o processo de execução das obras, em seu ateliê de Uberaba, Baroli narra a visita de abelhas que, seduzidas pelas cores, anunciam o legado da resistência.

Andréia Narciso

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