Emanoel Araujo | Simões de Assis

Emanoel Araujo, Onilê, 2021

A Simões de Assis apresenta, pela primeira vez em sua história, duas exposições simultâneas de um mesmo artista nas salas principais de seus espaços, em São Paulo e em Curitiba. Emanoel Araujo, artista de grande reconhecimento nacional e internacional, protagoniza as duas mostras com trabalhos recentes e históricos, acompanhados por um ensaio crítico assinado pela antropóloga, historiadora e pesquisadora Lília Moritz Schwarcz. O artista – que também atua extensa e intensamente como colecionador, curador, crítico, gestor cultural, cenógrafo, conservador e museólogo – é um nome fundamental na história da arte contemporânea no país, com uma pesquisa singular sobre a identidade e a cultura afro-brasileira.

Araujo nasceu em Santo Amaro da Purificação, em uma tradicional família de ourives, estudando também artes gráficas na Imprensa Oficial local. Ainda jovem, começou a desenvolver seus primeiros trabalhos e a aprender marcenaria e linotipia, realizando sua primeira individual em 1959. Na década de 1960, Araujo mudou-se para Salvador para estudar na Escola de Belas Artes da Bahia (UFBA), onde estudou gravura. Dali em diante, trilhou uma carreira brilhante, com uma obra coesa que pensa e repensa a reestruturação do universo da arte e da cultura negra, enfatizada em seus trabalhos por meio de formas e volumes geométricos aliados a contrastes acirrados, ângulos marcados e cores fortes.

A mostra na sede de São Paulo, com abertura prevista para 26/06, recebe o título de “Cosmogonia dos Símbolos”, e apresenta três diferentes séries de Araujo – Orixás, Relevos, e Navios. A mostra estabelece um diálogo com quatro pinturas de outro artista baiano: Rubem Valentim, que deixou parte de seu legado a Emanoel. Assim, algumas obras inacabadas de Valentim foram incorporadas a trabalhos da série Orixás – esculturas totêmicas de parede que articulam diferentes elementos incorporados e apropriados, como espelhos, conchas, miçangas, fotografias e objetos, para além das telas de Valentim.

Emanoel Araujo, Tirante, 2018/21

Esses são trabalhos que contam com uma escala monumental, imponente, e que erguem-se em planos geométricos cheios de movimento, laqueados por cores vibrantes. Os totens são ladeados por outras pinturas históricas de Valentim que pontuam o espaço expositivo reverberando essas mesmas formas e cores em composições mais sintéticas e mínimas, o que contribui para uma ampliação do potente diálogo entre os dois artistas, intensificado com esse pareamento.

Por entre os orixás apresenta-se também “Navio”, obra que integra um grande conjunto de trabalhos que lidam com a questão histórica dos navios negreiros. Essas embarcações, segundo Schwarcz, “representaram um símbolo maior da perversidade do sistema escravocrata”, de acordo com Schwarcz. “Cosmogonia dos Símbolos” também traz dois “Relevos” de Araujo, trabalhos icônicos do artista em sua articulação da geometria construtiva que marca grande parte de sua produção.

Também de acordo com Schwarcz, no ensaio crítico que acompanha as exposições: “(…) as obras de Emanuel Araujo revelam o quão profundas, profícuas e frequentes foram e são as relações entre a África e o Brasil, e vice-versa também. Pensado nesses termos, o trabalho desse artista polígrafo parece ocupar o lugar de Exu que, no candomblé, é o orixá ‘mensageiro”, intermediário entre seres humanos e divindades.”

Emanoel Araujo, Máscara, 1995

Em Curitiba, a partir de 03/07, a Simões de Assis também apresenta uma seleção de obras pensada a partir dessa verve construtiva do artista. A mostra, intitulada “Construção Simbólica”, reúne um conjunto expressivo de relevos e esculturas de Araujo, revelando seu olhar ímpar para uma geometria construtiva que conversa com diversos materiais, com destaque para o emprego da madeira e do metal.

Mas as construções do artista não se resumem apenas aos seus aspectos construtivos e geométricos: de acordo com Schwarcz, as esculturas verticais e relevos de parede “estabelecem uma comunicação com os objetos votivos de religiões africanas da época dos negreiros. As obras acomodam referências gráficas e pintura cromática com alegorias às divindades da cosmologia Iorubá e à simbologia do Candomblé”.

Essa mostra traz para Curitiba, pela primeira vez, obras icônicas desse vasto conjunto como “Totem dos losangos pretos”, feita em madeira com pintura automotiva, de 2015, e o “Pendente Vermelho”, de 2017, feito em madeira policromada e metal, que fica suspenso no coração da primeira sala expositiva. Além disso, também destaca-se a peça que fica exposta na fachada externa da galeria – a escultura de metal, sem título, datada 2021, que enfatiza o apelo e a natureza pública da obra de Emanoel.

Reconhecendo a importância da vida e obra de Araujo, a Simões de Assis celebra o artista e sua contribuição histórica, sua longa e prolífica carreira, seu incomparável legado e seu incansável trabalho. Juntas, as duas exposições, configuram-se como um esforço de abarcar a complexidade e a diversidade da multifacetada e vasta produção de Emanoel Araujo, revelando um conjunto potente em sua simbologia, materialidade, discurso e história.

Emanoel Araujo, Iemanjá, 2021

 

Simões de Assis – São Paulo:
Visitação: de 26/06 a 14/08/2021; segunda a sábado,10h-19h e aos sábados, 10h-15h – apenas com hora marcada.

Construção Simbólica – Curitiba:
Visitação: de 03/07 a 28/08/2021; segunda a sexta 10h – 19h e aos sábados, 10h-15h – apenas com hora marcada.

Compartilhar: