Dando início ao ciclo de exposições de 2026, a Galeria Espaço Piloto recebe a mostra Entre Tempos: vestígios de um corpo que resiste, do artista brasiliense Eduardo Moraes, com curadoria de Sofia Rodrigues Barbosa. A exposição reúne um conjunto de trabalhos que investigam a pintura como campo de inscrição da matéria e do tempo, a partir da incorporação de fragmentos arquitetônicos retirados de uma casa em processo de demolição.
Cascas de tinta, reboco, poeira e resíduos da construção civil tornam-se material de investigação pictórica. A série se desenvolve a partir de um procedimento rigoroso, marcado por operações como repetição, redução e estratificação da superfície. Trabalhando com um vocabulário restrito de materiais e gestos, Moraes explora variações sutis entre obras que compartilham a mesma origem matérica. Nesse processo, cada pintura apresenta uma configuração possível de um mesmo campo de experimentação, no qual o que poderia ser entendido como ruína ou resíduo passa a atuar como linguagem.
As obras operam como superfícies onde o tempo se deposita materialmente. Vista de perto, a pintura revela uma presença quase corporal, marcada pela densidade da matéria e pelas irregularidades da superfície. À distância, essas mesmas formas passam a sugerir relevos e cartografias, aproximando-se de imagens geológicas ou topográficas.
A pesquisa de Eduardo Moraes se desenvolve em torno de um vocabulário visual recorrente, construído a partir da repetição de cores, gestos e estruturas formais. Para esta exposição, a curadoria seleciona um conjunto de obras que evidencia esse procedimento metodológico, no qual elementos reaparecem em diferentes composições. A repetição de formas, aliada ao uso constante de determinadas configurações cromáticas e à presença do grafite tanto como desenho quanto como pintura, revela um sistema de trabalho baseado na variação e na persistência de certos signos. Assim, a exposição destaca como a investigação do artista se organiza a partir de um mesmo repertório visual, no qual cada obra surge como desdobramento de uma mesma matriz de experimentação.

