Desafios da modernidade. Família Gomide-Graz nas décadas de 1920 e 1930 | Museu de Arte Moderna de São Paulo

Pastoral, 1926, John Graz | FOTO: Romulo Fialdini

“Que soluças tu, transido de frio, sapo-cururu, da beira do rio…”, declamou o escritor brasileiro Ronald de Carvalho, sob vaias, o poema de Manuel Bandeira, durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Os versos da clássica obra Os sapos (1918) rimam com ironia a transformação e a necessidade de ruptura da poesia, referindo-se aos modernistas que aspiravam por liberdade e simplicidade na linguagem. Assim como na literatura, a arte moderna buscava romper antigos paradigmas e implementar novas formas de expressão. O movimento tomou proporções inimagináveis e a Semana de 22 se transformou em um marco na história da arte brasileira. Para iniciar as comemorações do centenário do movimento, o Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta, a partir do dia 25 de maio, a exposição Desafios da modernidade – Família Gomide-Graz nas décadas de 1920 e 1930, com curadoria de Maria Alice Milliet.

A mostra lança luz sobre a interface entre artes visuais e design enquanto uma vertente do modernismo brasileiro, fruto da Semana de 22. “Pode-se dizer que suas criações são solidárias, na medida em que pinturas, desenhos, tecidos, mobiliário e luminárias foram projetados para compor determinados ambientes, para funcionar em conjunto. É arte integrada ao espaço habitado e como tal será mostrada”, explica a curadora.

Os artistas Antonio Gomide, John Graz e Regina Gomide Graz foram figuras pioneiras no art déco e na introdução das composições geométricas abstratas no Brasil por meio de objetos utilitários. Nascidos no Brasil, os irmãos Gomide mudaram-se para a Suíça em 1913, e conheceram John Graz na Academia de Belas Artes de Genebra, onde os três estudaram. Graz enamorou-se de Regina, com quem se casou em 1920, no Brasil. Na mesma década, ele entrou em contato com os pioneiros do modernismo e participou da Semana de Arte Moderna.

Enquanto isso, ainda em 1920, Antonio vivia em Toulouse e se aproximava do artista francês Marcel Lenoir, com quem aprendeu técnicas de afresco. Vivendo na França, teve contato com modernistas brasileiros e artistas europeus ligados aos movimentos de vanguarda, a exemplo de Victor Brecheret, de quem foi vizinho em Montparnasse, bairro boêmio da capital, e Vicente do Rego Monteiro – ambos integrantes do movimento modernista.

Regina dedicou sua obra à tapeçaria e confeccionava painéis, colchas, almofadas, tecidos e abajures em estilo cubista e art déco. Em 1923, no Rio de Janeiro, realizou pesquisa sobre tecelagem indígena do Alto Amazonas, sendo, ao lado de Vicente do Rego Monteiro, pioneira no interesse pela tradição indígena brasileira.

Composição com figuras, 1925, Regina Gomide Graz | FOTO: Romulo Fialdini

“A marca registrada dos projetos de John Graz é a harmonia entre todos os elementos que integram o espaço planejado. Ele visava ao ‘design total’: do mobiliário a painéis, luminárias e até detalhes, como maçanetas e grades”, explica a curadora. Considerado o introdutor do art déco no Brasil, Graz se consagrou em São Paulo como arquiteto de interiores nas décadas de 1920 e 1930.

Regina e John Graz colaboraram com Warchavchik na montagem dos interiores da Casa Modernista. A casa, aberta para visitação pública, é hoje considerada um marco na introdução de um novo modo de morar. A proposta conjugava uma arquitetura funcional e despojada de ornamentos, com ambientes organizados a partir de um mobiliário de formas puras, complementados pelo melhor da arte moderna.

Antonio, John e Regina tornaram-se sócios fundadores e participaram expressivamente da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM). A associação buscava estreitar as relações entre artistas e pessoas que se interessavam pela arte em todas as manifestações, além de promover exposições, concertos, conferências, reuniões literárias, organizar anualmente o “mês da arte” e instalar uma sede social. Oficialmente fundada em 22 de dezembro de 1932 e idealizada pelo poeta Mário de Andrade, a SPAM reuniu artistas brasileiros como Anita Malfatti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, os mecenas Paulo Prado, Olívia Guedes Penteado, os escritores Sérgio Milliet e Menotti Del Picchia, entre outros.

Cerca de 80 obras serão expostas, entre pinturas emblemáticas de Antonio Gomide, painéis e móveis de John Graz, e tapeçarias, tapetes e colchas de Regina Gomide Graz, muitas delas cedidas por Fulvia e Adolpho Leirner. Para além da contribuição de coleções particulares, museus e instituições públicas no empréstimo das obras, a mostra contará com um videodocumentário preparado pelo Estúdio Preto e Branco, que trará para dentro do museu a atmosfera da época e os ambientes art déco projetados por John Graz. O público também poderá conferir trabalhos de Cássio M’Boy e João Batista Ferri. Durante o período de vigência da exposição, será lançado um catálogo com rico texto crítico e reprodução de todas as peças presentes na mostra.

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