Derlon | Galeria Amparo 60

De terra de pescadores, área de veraneio de residentes do Centro, até o atual paredão de concreto, a história de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, é atravessada pelo mar. A própria etimologia é um convite à contemplação ao horizonte marítimo, suas belezas, mistérios e poder acolhedor. Essa também pode ser a sensação de quem adentra na exposição Boa Viagem, do artista visual recifense Derlon, na Galeria Amparo 60, localizada no bairro de mesmo nome. Conhecido por fundir o grafite com a arte popular brasileira, em especial a estética da xilogravura, o pernambucano quis sair do formato convencional de exposição. As obras ocupam todas as paredes do espaço, numa espécie de instalação, além de objetos, criando um só horizonte que desenvolve os temas ligados ao mar.

Realizada em uma parceria com a SpotArt e com apoio da Móbile Studio, a mostra conta com um espaço expositivo montado na primeira sala da galeria. “Acredito que o artista não pode mostrar sempre a mesma coisa. O legal é apresentar uma capacidade inovadora, então tive a ideia de trabalhar com paredes e objetos, como um barquinho que eu construí ou uma moringa, que dá um sentido de lar, do mar que reconforta e acolhe”, explica Derlon, que mora em São Paulo há oito anos. Segundo Mariana Oliveira, que assina o texto curatorial, os conceitos e ideias que norteariam o processo foram sendo desenvolvidos aos poucos, iniciando com a confecção dos objetos e se materializando por completo apenas durante a montagem e a pintura das paredes da galeria. “Essa ideia de mar como uma espécie de lar, onde somos recebidos e abraçados é muito forte. Quem sempre viveu numa cidade litorânea sabe o quanto a presença do oceano, da praia, nos abraça e nos acolhe, nos define”, reflete Mariana.

“As pessoas já me conhecem como um pintor muralista, quero envolver todas as paredes dando uma ideia de tridimensionalidade no espaço. Todas as paredes do salão, juntas, soam como uma paisagem, como se você estivesse dentro do mar”, complementa o artista.

Em sua obra, Derlon segue duas vertentes: uma mais voltada para o interior, a exemplo de sua exposição mais recente na capital pernambucana (A beleza do tempo, também na Amparo 60, em 2019), e outra mais voltada para o mar. “É a partir desses dois conceitos que os temas se desenvolvem. Achei bacana trazer a relação com o mar para esse trabalho pois tem tudo a ver: o espaço fica a poucos metros da praia e, como alguém que nasceu numa cidade litorânea, ir para a praia sempre foi um lazer desde criança, fosse no Litoral Norte ou Sul. Achei que o nome Boa Viagem dava uma grande chance de expressar esse sentimento”.

O artista também explica que a ideia de “viagem” também está atrelada ao percurso de ida e volta do pescador ao mar. Ele foi muito inspirado pela obra musical e poética de Dorival Caymmi (1914 – 2008), que cantou bastante sobre esse imaginário. Não apenas os pescadores estarão pintados nas paredes, como também as carrancas, historicamente usadas por barqueiros do Rio São Francisco para afugentar os maus espíritos – o que remonta também à vertente do interior. “Derlon explora todos esses elementos que nos remetem à água, aos rios, ao mar, aos mistérios que esses ambientes têm. Sereias, faróis, barcos, peixes, carrancas, tudo isso compõe o nosso imaginário ligado à força e ao poder das águas. Ela é nosso primeiro lar. Sem ela não estaríamos aqui”, diz Mariana.

Derlon teve sua primeira participação numa exposição em 2007, no Mamam, no Recife, sendo convidado para trabalhar com o grande gravurista Gilvan Samico (1928 – 20130 no ano seguinte. Desde então, já realizou diversas exposições individuais em São Paulo e no Rio de Janeiro, além participar de mostras coletivas no exterior, também criando grandes painéis em fachadas de prédios, com em Amsterdã, Lisboa, Newcastle, com destaque para o mural dentro da Embaixada do Brasil em Londres (2016).

A exposição faz parte do projeto Mirada, idealizado pela galerista Lúcia Costa Santos em parceria com a SpotArt durante a pandemia. A ideia é, a partir da mirada, do olhar, de um espaço expositivo reduzido ampliar o alcance das obras. Esta será a sexta exposição do projeto, que se estende ao longo de 2021. Como nas demais mostras, o artista produzirá uma tiragem limitada de serigrafias.

Compartilhar: