Deixar (de) nos mentir não é um título que se resolve. Ele propõe uma tensão, talvez até uma contradição, que atravessa os processos artísticos e reflexivos desenvolvidos pelos grupos Impossibilidade de Esgotamento ao longo deste semestre.
Não se trata apenas de pensar a necessidade de deixar de mentir a nós mesmos — esse imperativo moral moderno que promete alguma forma de autenticidade, como se houvesse um eu verdadeiro a ser desvelado. Trata-se também, e sobretudo, de deixar-se mentir: abrir espaço para o que em nós se ficcionaliza, se desdobra, se inventa como forma de sobrevivência e criação.
A mentira, aqui, não é engano, mas elaboração. Um modo de friccionar a verdade até que ela perca sua rigidez, e no encontro com o falso, com o imaginário, com o outro em nós, produza uma terceira via, uma zona de contaminação. O sujeito, nessa chave, não é nem centro nem essência, mas superfície de inscrição instável, onde o que se diz e o que se encena nem sempre coincidem.
Mentir pode, então, ser um gesto ético: não como trapaça, mas como invenção de si. O sujeito como figura que se desenha no atrito entre o dentro e o fora, entre a superfície e o abismo, entre o que se diz de si e o que se encena no outro. Como escreve Gonçalo M. Tavares, “toda a nossa identidade é, no fundo, uma ficção contínua que construímos e aceitamos. Uma ficção habitável”. Assim, mentira não é o oposto da verdade, mas uma de suas formas: aquilo que torna possível a emergência de um eu que se elabora na dobra entre linguagem, corpo e imagem.
Seguindo uma proposta metodológica que englobou encontros práticos e teóricos, construímos imagens, objetos, textos e ações em diálogo com escritoras/es, filósofas/os, artistas que falam de si a partir da ideia de que “cada ser vivo é uma legião”, e que “todo ser vivo não apenas está em continuidade com o não vivo, mas ele é seu prolongamento, sua metamorfose, sua expressão mais extrema” (Emanuele Coccia). Trabalhamos com uma pluralidade de formas e criações de vazios que nos permitiram perceber a nós mesmas/os, no sentido de que “dizer ‘eu’” significa confundir-se com um outro.
Penso que podemos olhar com atenção para a palavra “intermédio”, no sentido dado por Mário de Sá-Carneiro, no poema: “Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o outro”. E, ainda pensando com Coccia, “certamente, somos um pedaço desse mundo, mas um pedaço do qual tivemos que mudar a forma”, e minha a proposta foi que pudéssemos criar outras formas de nós, coisas estranhas que levassem a nos tornar cada vez mais estrangeiros a nós mesmas/os. As máscaras, aqui, não se ocultam, se revelam. As escritas não relatam, duvidam. As imagens não representam, arrastam consigo o lastro de um tempo não linear, uma superfície de inscrição e apagamento.
Deixar (de) nos mentir foi também uma forma de habitar a incerteza, de pôr em crise o discurso da autenticidade e de abrir espaço para a fabulação como gesto crítico.
Participam da mostra:
Ana da Nova, Analize Nicolini, Andreia Passos, Bodhan, Carolina Moraes, Dalila Onofre, Fabiana Mateus, Fernanda Lago, Francine Bagnati, Gianella Riephoff , Gustavo Scheidt, Ilca Barcellos, Isabel Kanan, Jade Sapucahy, Jessica Pellegrini, Karen Rechia, Laïs Krücken , Larissa Arpana, Lu de Moraes, Marceli Mengarda, Mariana Colin, Maristela Silveira , Mulika, Naiana Klein Rech, Nestor Jr, Ramayana Lira de Sousa, Sandra Meyer, Sandro Clemes, Simone Garcia e Zans.
Curadoria: Kamilla Nunes

