Darcílio Lima: um Universo Fantástico

A CAIXA Cultural Rio de Janeiro apresenta, de 9 de maio a 28 de junho, a exposição “Darcílio Lima: um universo fantástico”, que reúne 65 trabalhos do artista cearense, considerado um dos maiores representantes do surrealismo no Brasil. As obras presentes na exposição são, em sua maioria, desenhos a bico-de-pena que criam rendilhados perfeitos, cujas malhas são traçadas ponto a ponto, em grande detalhe e com padrões executados de forma persistente. Na temática do artista, prevalecem conteúdos místicos, sexuais e religiosos.

A mostra inclui ainda gravuras, pinturas e três exemplares da serigrafia Che Guevara, de Antonio Manoel, aquareladas por Darcílio. Idealizada e coordenada pelo marchand Afonso Costa, que se dedicou ao garimpo dos trabalhos do artista com colecionadores e casas de leilões de arte, a exposição tem curadoria do psicanalista Guilherme Gutman.

Desenhista e gravador, Darcílio Lima morreu aos 47 anos, em 1991. Natural de Cascavel (CE), foi no Rio de Janeiro que produziu a maior parte dos trabalhos que integram a mostra. Dono de uma obra diversificada, principalmente em papel, Darcílio foi paciente da Casa das Palmeiras, uma instituição destinada ao tratamento de egressos de instituições psiquiátricas por meio de formas de expressão criativa, administrada à época pela renomada psiquiatra brasileira Nise da Silveira.

Impressionada com a qualidade do trabalho de Darcílio, a Dra. Nise apresentou-o ao pintor Ivan Serpa, que não só levou o artista cearense a frequentar suas aulas no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ) como desenvolveu com ele uma relação de amizade e parceria. Chegou a abrigá-lo por quase três anos, em sua casa e ateliê, no Méier, zona norte do Rio.

“O período em que viveu e trabalhou ao lado de Ivan Serpa – que costumava dizer a Darcílio que ele não tinha nada mais a aprender, só precisava trabalhar – coincide com sua maior e melhor produção. Creio que a relação de respeito e admiração que Darcílio desenvolveu com Ivan Serpa foi profundamente inspiradora e o impulsionou bastante para produzir”, afirma Gutman.

Em 1971, Darcílio Lima ganhou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro do XX Salão de Arte Moderna do MAM (RJ), que o levou a uma temporada de três anos na Europa. Na época, Darcílio conviveu com alguns dos mais importantes artistas de seu tempo, como os surrealistas Salvador Dalí e Felix Labisse. Publicou ilustrações na revista francesa Bizarre e assinou contrato com a editora de gravuras Vision Nouvelle, a mesma de Miró e Dalí.

 

DARCILIO LIMA E O UNIVERSO INTERIOR

Boa parte da vida de Darcílio é envolta em mistério, talvez em função de sua luta com os distúrbios mentais. O artista cearense alternou períodos de lucidez e trabalho com fases de extrema pobreza e degradação, em que sumia e chegava até a viver na rua.

“Em muitos casos, quando a loucura aparece, a obra de um artista pode ‘desmontar’. Este não foi, com certeza, o caso de Darcílio. Posso arriscar dizer que, em sua obra, a arte e a loucura tiveram um ‘encontro feliz’. A loucura fertilizou a sua arte por um tempo razoável, que coincide com o seu apogeu, ainda que, mais para o final do seu período produtivo, isso possa ter se modificado, dadas as características de suas últimas obras”, afirma o curador Guilherme Gutman.

Após a temporada no Rio de Janeiro, a exposição Darcílio Lima: um universo fantástico passará também por Brasília e São Paulo.

 

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