DALTON PAULA | MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Dalton Paula, Manuel Congo, 2022 | Doação do artista ao acervo MASP, 2022 | FOTO: Paulo Rezende.

O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e o Ministério do Turismo apresentam, de 29 de julho a 30 de outubro de 2022, a mostra individual Dalton Paula: retratos brasileiros, que ocupa o mezanino no 1o subsolo do museu. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, Glaucea Britto, curadora assistente do MASP, e Lilia Schwarcz, curadora convidada de histórias, a exposição reúne 45 pinturas que retratam lideranças e personalidades negras historicamente invisibilizadas no Brasil. Entre as obras, 12 foram produzidas de 2019 a 2022 com apoio financeiro do museu e então doadas ao MASP pelo artista. A mostra tem patrocínio master do Bradesco, patrocínio da Livelo e apoio do Lefosse.

Dalton Paula (1982 – Brasília) vive e trabalha em Goiânia, onde se formou em Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás (UFG). Sua prática artística utiliza diversas linguagens, como pintura, performance, instalação, fotografia e objeto, para evidenciar relações entre imagem e poder. Em seu repertório, a figura central é o corpo negro em diáspora, seus ritos e rituais, com destaque para os retratos de personalidades negras que constituem uma proposta de revisão da historiografia oficial do Brasil.

A exposição Dalton Paula: retratos brasileiros traz trabalhos de diferentes fases da trajetória do artista, de 2018 até os dias atuais, sendo 30 deles exibidos pela primeira vez. As obras resultam de um longo processo artístico que se inicia com a seleção de biografias, parte para uma pesquisa e a coleta de documentos, como fotos e recortes, e então segue para a fase de produção. “É possível dizer que as pinturas falam entre si, como amigas íntimas, expressando suas personalidades, filosofias e práticas. São feitas no coletivo, como são coletivos os ensinamentos ancestrais”, reflete a curadora Lilia Schwarcz.

Em sua pesquisa, Paula revisita questões da historiografia oficial e das histórias da arte como matéria de criação de seus retratos, a fim de ressignificar e dar protagonismo às contribuições de personalidades afrodescendentes. Um exemplo disso é o uso da fotografia, em que o artista subverte a suposta objetividade fotográfica e seu valor como registro histórico ao utilizar fotografias contemporâneas de pessoas do quilombo Alto Santana, em Goiás, e de personalidades negras de diferentes origens e períodos históricos como base para a criação de alguns de seus novos retratos através da pintura.

Na construção das obras, o artista explora o recurso da cor para evocar diferentes significados e como metáfora para a ocupação de outros espaços: da arte, da história e da sociedade. “A cor tem sido pensada como estratégia tanto para não permitir o enquadramento de sua produção em determinadas categorias estéticas que a subalternizem quanto para ‘chamar o olhar para dançar’ através das camadas de tinta e de significado que dão forma e destaque aos seus personagens”, reflete a curadora Glaucea Britto.

O uso de duas telas para compor cada retrato é outra característica visual marcante do trabalho de Paula, atuando como uma metáfora para o processo de pesquisa vivenciado pelo artista nas comunidades quilombolas, onde é possível buscar vestígios e juntar fragmentos na reconstrução de uma história que permanece em aberto, fissurada, indicando outras possibilidades de sentido. Como descreve Lilia Schwarcz: “o artista busca uma vocação no presente sem se desfazer da violência do passado. Tanto que ‘parte’ seus retratos em dois, em duas telas unidas, que deixam entrever a fenda. Assim, fica aparente a incompletude, mas também a plenitude dessas pessoas”.

Em suas obras mais recentes, o artista adota os espaços sem preenchimento de tinta, sugerindo uma história em reconstrução. As folhas de ouro de 22 quilates utilizadas como adorno nos cabelos dos retratados exaltam a importância central da cabeça nas tradições afro-brasileiras como um lugar sagrado e honram as histórias dessas personalidades – algumas delas, reis e rainhas no continente africano – que foram escravizadas no Brasil.

“O brilho do sol, da vela e da flor da senzala reluz nos fios dourados de seus personagens. Assim, o processo de construção da cor e de aplicação das folhas de ouro são para o artista uma espécie de ritual que necessita de um grau elevado de concentração e apuro técnico, muitas vezes registrado no seu caderno de estudos”, conta Britto. “Ao articular essas várias camadas interpretativas ao processo de construção da imagem, os retratos criados por Dalton Paula conferem dignidade a homens e mulheres negras que foram objetificados, estereotipados e dominados por uma tradição visual, ora da fotografia, ora da pintura, orientada pelo padrão branco”, finaliza.

Dalton Paula: retratos brasileiros integra a programação bienal do MASP dedicada às Histórias brasileiras (2021-22), por ocasião do bicentenário da independência do Brasil, em 2022. Este ano, a programação também inclui mostras de Joseca Yanomami, Madalena dos Santos Reinbolt (1919-1977), Judith Lauand e Cinthia Marcelle, além Histórias brasileiras, uma grande coletiva.

Compartilhar: