Daisy Xavier | Galeria Karla Osorio

Daisy Xavier, Aproximação do vermelho |FOTO: Pat Kilgore

Segundo a curadora Luisa Duarte, “a obra de Daisy Xavier trai a vontade, tão atual, de tudo catalogar, esquadrinhar, delimitar. Em uma época que apregoa a precisão e a eficácia, seus trabalhos recordam a fragilidade contida sob a vontade voraz por controle, segurança e resultado. Dando um passo além nessa hipótese, afirmo que a produção da artista faz mais um desvio em relação a um traço marcante da atualidade, qual seja, a de um mundo que se recusa a acolher ambiguidades ou matizes. Não há espaço para “mas”, “porém”, “talvez”, “será?”. As hesitações devem ser descartadas em favor de certezas e afirmações categóricas. A obra de Xavier caminha justamente na contramão de tais imperativos atuais.

A exposição “do AR para LUZ” encontra-se alinhavada através de três séries de trabalhos.

“Pequenas gravidades” apresenta telas de grande formato sobre as quais a artista introduz um elemento essencial de sua poética, qual seja, a rede. A superfície planar é envolvida por redes de fios metálicos que formam relevos, desenhos ondulatórios, movimentos que se contrapõe a rigidez bidimensional do quadro. A rede, assim como a água, não deixa precisar o que está dentro ou fora. Borra as fronteiras, deflagra o trânsito, sem definir o nome do destino. Ou seja, guarda a potência de suspender dualidades, binarismos, em favor de um terceiro que descortina a chance de atravessamentos e reversibilidades. O partido pelo indiscernível, por algo que escapa ao enquadramento, parece ser fruto da recusa em forjar uma possível ordem. Ordem incompatível com um inconsciente que, como a água, é fluido, não admitindo sinalizações exatas, tampouco definições estanques.

Em “Sobre como as coisas caem”, telas verticais nos direcionam para uma especulação recorrente na produção da artista, aquela que versa sobre o equilíbrio tênue que permeia a nossa experiência no mundo. Aqui, pó́ de ferrugem, chapa de latão, ácido e ecoline forjam pinturas que, em diálogo com a gravura, desvelam cubos vazados tecidos em metal cujos vestígios guardam a memória de diferentes quedas.

Completam a exposição pequenas telas brancas sobre as quais pousam redes metálicas e lãs de cor alaranjada. Estes trabalhos formam o vínculo com a série inédita de pinturas na qual a artista faz um uso intenso da cor, algo raro em sua trajetória. Aqui, formas agudas, quase rígidas, contrastam com a leveza produzida pela mescla entre aquarela e acrílica. A repetição, tão presente em sua obra, se faz presente com a multiplicação de uma mesma forma, quase-vetores de seis pontas que se sobrepõem deflagrando uma explosão de fragmentos que parecem flutuar no quadro. Entre as redes metálicas que evocam pequenas gravidades e as telas hiper coloridas Daisy Xavier desenha uma passagem do AR para LUZ.

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