Crônicas Cariocas | Museu de Arte do Rio (MAR)

São Jorge e o Devir, Thales Leite, 2009

O Museu de Arte do Rio (MAR) estreia no dia 25 de setembro sua maior mostra do ano. Chamada de “Crônicas Cariocas”, a exposição foi pensada para escutar e discutir o Rio de Janeiro que não está nos livros, mas que figura no imaginário coletivo daqueles que vivem e respiram a cidade em toda sua complexidade. A montagem dá vida às histórias cotidianas; relações com a vizinhança; festas; encontros dos ônibus lotados e calçadas. Por trás daquilo que é exportado ao mundo, propõe-se narrar o Rio que se embeleza e finge não ver os subúrbios.

Para Amanda Bonan, uma das curadoras da exposição, o cenário pandêmico em que vivemos foi preponderante para a concepção da exposição. “Pensamos a partir da frase impactante e fundamental de Ailton Krenak: ‘É preciso adiar o fim do mundo para contar mais uma história’. Mas que histórias seriam essas que valeriam a pena continuar contando hoje? Vamos falar dessa cidade partida”, afirma.

Segundo o diretor da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) — instituição gestora do MAR —, Raphael Callou, por meio da mostra, “deixamos de lado esse ‘novo normal’ para relembrar o mundo de antes, ainda que nos pareça um pouco distante”. A exposição é a primeira a ocupar o terceiro andar do museu sob a gestão da OEI.

Ao todo, quase 600 obras de arte — nos mais diversos suportes, como vídeos, objetos, instalações, fotografias e pinturas — vão ocupar três galerias do museu, cuja arrumação confere ares labirínticos ao local. Cada pedaço de parede revela momentos do Rio. Do orgulho negro as noites eróticas. Desse total de peças, 79 já faziam parte do acervo museológico do MAR. Visando incentivar a produção artística e fortalecer o papel social do museu, a exposição também vai contar com obras comissionadas, criadas especificamente para a mostra.

Entre os cerca de 110 artistas que participam da montagem, destacam-se Sônia Gomes, Lucia Laguna, Rosana Paulino, Brígida Baltar, Denilson Baniwa, Alexandre Vogler, Bispo do Rosário, Laerte e Bastardo. Nomes contemporâneos, a exemplo de Guignard, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Mestre Didi, também compõem a coletiva. Além de Bonan, assinam a curadoria o curador-chefe do museu, Marcelo Campos, o historiador Luiz Antônio Simas e a escritora Conceição Evaristo.

Segundo Campos, “Crônicas Cariocas” trata de um Rio que apesar dos pesares revive diariamente. “Ela fala da cidade suburbana, cujo afeto é o amálgama das relações e histórias miúdas. Um Rio que reza e dança, que inventa seus próprios deuses, enquanto se organiza no trabalho informal e na poesia dos trens e das praças. Um Rio que viu seus cinemas fecharem, suas linhas de ônibus deixarem de ligar as zonas Sul e Norte, mas que, ainda assim, nasce e renasce todos os dias”, salienta.

Simas destaca que a crônica é um gênero literário carioca por excelência. “Machado de Assis fala disso, que a crônica começa quando duas vizinhas falam do calor e a história se desenrola. Mas ela não se limita à literatura. A crônica está presente na música popular, nas conversas cotidianas, nas sociabilidades construídas nos botequins, nas esquinas, no convívio com as rezadeiras, enfim. É disso que se trata”, afirma.

Ônibus em inundação no Jardim Botânico, Evandro Teixeira

Uma conversa entre vizinhos

Já no início da exposição o visitante será surpreendido por um burburinho vindo do túnel que dá acesso às galerias. Trata-se do áudio de uma conversa entre Luiz Antônio Simas, Conceição Evaristo e a cantora Teresa Cristina. Ao fim da passagem, na chegada ao primeiro espaço expositivo, uma televisão exibe o vídeo do bate-papo. A ideia é brincar e fazer referência às conversas de janela entre vizinhos, que em razão da pandemia de covid-19 passaram a acontecer virtualmente.

Novidade na vida da escritora Conceição Evaristo, a tecnologia tem se mostrado uma aliada importante nesse período de distanciamento social. “A pandemia oferece dificuldades, mas ela oferece essa possibilidade de invenção de local, de encontro. A solidão já fica marcada por esse isolamento físico, mas a gente sempre encontra brechas de encontrar com o outro. Essas conversas virtuais são muito novas para mim. Prefiro o real, sem comparação. Tô com uma saudade do real”, brinca.

Isso é a cara do Rio!

Em paralelo à exposição, o MAR vai lançar semanalmente, nas redes sociais do museu, a série “Isso é a cara do Rio!”. Composta por dez vídeos, a sequência vai abordar o cotidiano do carioca em situações do dia a dia, comumente observadas pelas ruas do município. Todo o conteúdo dialoga com a proposta da mostra.

O vendedor de mate, Guilherme Kidd

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