Por meio de trinta obras, a artista visual cearense Ana Cristina Mendes contribui com discussões latentes nas artes sobre ecologia, reflexões sobre o feminino e também as interações entre diferentes espécies humanas e não-humanas na mostra inédita Cosmologia Tecida, aberta para visitação a partir do dia 25 de outubro, sábado, 14h, no Massapê (R. Fortunato, 68, São Paulo).
A mostra, com curadoria de Lucas Dilacerda, é o recorte de obras que revelam uma imersão profunda na relação entre corpo, natureza e tecido, que conecta todos os seres, convidando o público a adentrar em uma memória que ultrapassa o tempo linear, fluido mas também convergente, como a própria água. Em Cosmologia Tecida, o público é convidado a entrar em contato com materialidades de diferentes texturas e cores, além de experimentar uma imersão por meio de obras de grande porte.
As questões trazidas pelos trabalhos estabelecem um diálogo direto com as discussões dos debates atuais e urgentes sobre o meio ambiente. A pesquisa de Ana parte da imersão do corpo na natureza e deságua em várias linguagens artísticas, como desenho, escultura, pintura, vídeo-performance e instalações, que desvelam, sobretudo, a força primal da memória e da ancestralidade.
Entre as obras em exibição, destacam-se: “Tecido rio”, uma escultura textil de 10 x 1 m composta por camadas de tecido e desenhos, “Mulherriotecida (Camparska Capari Macedônia)”, uma impressão fine art de 92 x 136 cm; as pinturas “Meditação I, II e III” em acrílica sobre tela; a instalação “Bicho do rio”, desenhos escultóricos e relicários com elementos que remetem a mistérios e segredos do rio; as aquarelas da “Série Pouso”; a série “Sertão de dentro” e a obra “Pedra do mar que virou sertão”.
A materialidade do tecido é um fio condutor na obra de Ana Cristina Mendes, que desde sua história de vida ligada à moda e aos têxteis, traz essa característica nos seus trabalhos. Sobre os tecidos escolhidos para as obras de Cosmologia Tecida, ela os descreve como porosos, capazes de trazerem marcas que diminuem as distâncias. Eles também têm uma característica elástica, que alcança e retrai. “Eu vejo esses tecidos como abarcadores de mundos, já que ao levá-los para a natureza, eles ganham elementos dela”, explica Ana Cristina, reforçando que a areia, a vegetação e o sal são alguns dos elementos que se incorporam neles.
Segundo Lucas Dilacerda, curador da mostra, a poética de Ana Cristina Mendes emerge como um contínuo de forças vitais, em que corpo, água e tempo se entrelaçam para fabular modos de existir para além do humano. “Sua criação é movida por um vitalismo que reconhece a vida como energia em permanente metamorfose: tudo se expande e se contrai, como um elástico de forças que se transforma sem cessar. Nessa cosmologia, além de elemento, a água é máquina do tempo e arquivo vivo, portadora de memórias ancestrais que atravessam a terra e o corpo”, diz Lucas.
A pesquisa da artista, nos termos da memória afetiva e ancestral, conecta-se diretamente ao Rio Jaguaribe, no Ceará, onde sua mãe, avó e tataravó nasceram. Inclusive, a instalação “Bicho do Rio”, inspirada na lenda sobre uma criatura híbrida associada ao feminino, é composta por relíquias do rio e objetos pessoais da casa da avó de Ana Cristina, em Jucás (CE). “A ancestralidade que atravessa essa poética não se restringe ao humano: é cósmica, vegetal, mineral, espiritual”, reforça o curador.


