Conceição dos Bugres | MASP

Conceição dos Bugres, Sem título, cerca de 1970 | Acervo MASP, doação, Edmar Pinto Costa, 2020 | FOTO: Eduardo Ortega

Conceição Freitas da Silva (Povinho de Santiago, Rio Grande do Sul, 1914 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 1984), mais conhecida como Conceição dos Bugres, é a artista escolhida para dar início ao biênio das Histórias brasileiras no MASP. A exposição Conceição dos Bugres: tudo é da natureza do mundo começa em 14 de maio de 2021 e fica em cartaz até 30 de janeiro de 2022. Por causa da pandemia de covid-19, o museu precisou reorganizar sua grade de exposições. Neste ano, elas serão menores em número e maiores em duração. A partir do segundo semestre, essa mostra irá coincidir com as individuais de Erika Verzutti e Maria Martins (1894-1973), enfatizando o papel das mulheres para a linguagem escultórica no Brasil.

“Nesse país tão plural e diverso como é o Brasil, muitas histórias e agências ficaram à margem, por isso é tão fundamental iniciar esse ciclo de exposições com uma artista cuja produção tem um valor ainda a ser reconhecido e reposicionado na história da escultura em nosso país. Este projeto reafirma uma posição de Conceição dos Bugres como parte de um cenário amplo e inclusivo, ressaltando sua valiosa contribuição para a arte brasileira”, afirma Amanda Carneiro, curadora assistente no museu e curadora da exposição ao lado de Fernando Oliva, curador no MASP.

A mostra em questão se encaixa em um movimento que o MASP vem fazendo desde 2016 ao apresentar obras de artistas que ficaram fora das histórias oficiais da arte com o objetivo de reposicioná-los. É o caso, por exemplo, das exposições Agostinho Batista de Freitas (2016), Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência (2018) e Djanira: a memória de seu povo (2019).

“A trajetória da Conceição dos Bugres sofreu um processo de apagamento como a de muitos artistas da chamada ‘arte popular brasileira’. Há uma tentativa de inserção dela nesse grande escaninho, o que nem sempre é algo positivo para o artista”, explica Oliva.

Conceição foi uma artista ímpar para a história da escultura no Brasil, reconhecida por sua produção dos chamados “bugres”, trabalhos geralmente esculpidos em madeira e cobertos por cera de abelha ou parafina e tinta, mas que também podem ser feitos em pedra sabão e arenito.

Sem título, década de 1960-1984 | Coleção [Collection] Edmar Pinto da Costa, São Paulo | FOTO: Eduardo Ortega

O termo “bugre” tem sido questionado por sua dimensão pejorativa, principalmente por ser utilizado em referência à própria origem da artista; é indiciário do processo de discriminação contra as populações indígenas no país. No Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, organizado por Antônio Geraldo da Cunha, quer dizer “designação genérica dada ao índio, especialmente o bravio e/ou guerreiro, por extensão, rude e grosseiro”. No entanto, com o tempo, o nome das peças passaram a nomear também a artista, numa relação ambígua entre a artista e suas esculturas.

Os bugres de Conceição, por sua vez, figuram personagens de tipo característico fundamentados na repetição do uso dos materiais e formas e na especificidade de seus traços. Apesar de apresentarem um padrão que as define, suas esculturas têm subconjuntos variados e são dotadas de fortes e singulares personalidades, distinguíveis em relação a sutis e apuradas modificações na forma, mas também à expressão, revelando a excelência da artista.

Segundo Oliva, a mostra é justamente baseada nessa fricção entre a repetição e a diferença. “As obras dela, supostamente, se parecem, mas existem também muitas particularidades que ainda não foram estudadas”, diz. “Como é uma artista que foi deixada à margem, existem alguns clichês sobre a obra dela, e a repetição é um deles”, completa. Assim como as comparações com os ex-votos do nordeste brasileiro e as aproximações com o minimalismo de Brancusi. O diferencial, no MASP, além da exposição em si, que já é uma novidade, será olhar para as diferenças entre as obras dela e ressaltá-las.

A expografia irá contribuir nesse propósito: uma das paredes do primeiro subsolo será ocupada por um grande painel que irá reunir todas as obras na mesma superfície, mas em diferentes alturas, criando um sentido de conjunto mas, ao mesmo tempo, chamando atenção para as especificidades de cada núcleo.

A artista teve certo reconhecimento nos anos 1970, ainda em vida. Roberto Pontual (1939-1994) foi um de seus principais divulgadores, seguindo caminho aberto por Humberto Espindola e Aline Figueiredo. Com mais de 50 anos, ela participou da exposição Arte/Brasil/Hoje: 50 anos depois (Rio de Janeiro, 1972) e da III Bienal Nacional (São Paulo, 1974). Essa visibilidade, por outro lado, não se converteu em ganhos financeiros e ela morreu pobre, em 1984.

Seu trabalho foi seguido por seu marido Abílio Freitas da Silva e, ainda hoje, seu neto, Mariano Antunes Cabral Silva, continua produzindo os bugres. Atualmente, Conceição é figura emblemática no Mato Grosso do Sul e sua imagem é comumente vinculada à produção artística do estado.

A exposição irá reunir 113 obras da artista, a maioria vinda de coleções particulares. Há pouquíssimas obras dela em acervos públicos, fato que também diz sobre esse processo de apagamento. Hoje, o trabalho dela se encontra apenas nas coleções do Museu Afro Brasil e do Itaú Cultural.

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