Como habitar o presente? Ato 2 – Estamos aqui | Simone Cadinelli Arte Contemporânea

Simone Cadinelli Arte Contemporânea, dá sequência à exposição “Como habitar o presente?” com o “Ato 2 – Estamos Aqui” em sua vitrine e seu site, a partir de 24 de agosto de 2020. Os trabalhos em vídeo feitos em várias linguagens multimídia, como videomapping e GIFs, ficarão ligados 24 horas por dia, e poderão ser vistos por quem estiver passando no local, na Rua Aníbal Mendonça, em Ipanema. A exposição será replicada no site da galeria, com informações completas das obras e dos artistas [https://www.simonecadinelli.com].

Este novo momento da mostra reúne obras de 15 artistas nascidos ou radicados no Rio, São Paulo, Belém, Salvador e Porto Alegre: Ana Clara Tito (Bom Jardim, Rio de Janeiro, 1993), Batman Zavareze (Rio de Janeiro, 1972), Gabriela Noujaim (Rio de Janeiro, 1983), Ivar Rocha (Niterói, 1986), Jonas Arrabal (Cabo Frio, Rio de Janeiro, 1984, radicado em São Paulo), Leandra Espírito Santo (1983, Volta Redonda, Rio de Janeiro, e trabalha entre São Paulo e Rio), Martha Niklaus (1960, Rio de Janeiro), Nathan Braga (Rio de Janeiro, 1994),  Panmela Castro (Rio de Janeiro, 1981),  Roberta Carvalho (Belém do Pará, 1980), Simone Cupello (1962, Niterói), Talitha Rossi (Resende, Rio de Janeiro, 1987), Ursula Tautz (Rio de Janeiro, 1968), Virgínia di Lauro (Barra da Choça, Bahia, 1989, radicada em Porto Alegre), VJ Gabiru (São Paulo, 1977, vive em Salvador, Bahia).

A curadora Érika Nascimento comenta que “neste tempo cronometrado, em que a vida humana na Terra aparenta ter dias contados, apresentamos ‘Estamos aqui’ – o segundo ato da exposição Como habitar o presente? – e ansiando por dias melhores”. “Em um lugar de fragilidades e dor pelos nossos corpos sociais e físicos, onde a experiência de vivenciar a cidade está afetada, percebemos o mundo – e os códigos para nele existir – sendo recriado a todo tempo. Um lugar de estranhamento, dor e vulnerabilidade, um estado de tensão e atenção para uma sociedade doente”, afirma. “Estamos aqui, em uma dinâmica temporal atropelada, quase um loop, e continuamos sem respostas para as provocações lançadas no primeiro ato. Como podemos imaginar um horizonte, um mundo possível, o nosso lugar como habitante neste tempo presente-futuro? Como manter um estado de esperança e antecipar o presente?”, indaga a curadora.

Os vídeos, em diferentes conceitos, abordam questões pertinentes ao nosso momento atual, como a ideia de infinitos realizados através de códigos gerados a partir do bater das asas de borboleta, no trabalho do criador multimídia de projetos multidisciplinares Batman Zavareze; ideias de “apagamento”, da artista Leandra Espírito Santo, que transita em vários meios, como a performance; a alertas como o feito por Martha Niklaus, do risco permanente sofrido pelo acervo do Museu Casa de Pontal; a transitoriedade da vida na ótica de Nathan Braga; a denúncia da violência contra a mulher, biológica ou não, feita por Panmela Castro, que já expôs no Stedelijk Museum, em Amsterdã, e está na coleção da ONU; a pesquisa sobre o corpo feminino e suas transfigurações diante do “messianismo digital”, com seus símbolos e cancelamentos, de Talitha Rossi; a reconstrução do percurso de seus ancestrais, de Ursula Tautz; a memória, em pequenos fragmentos filmados e GIFs, de Virgínia di Lauro; e, em época de uma pandemia até o momento incurável, o silêncio da noite da cidade vazia, em imagens drone, do artista multimídia VJ Gabiru (Davi Cavalcanti).

Érika Nascimento observa que “Como habitar o presente?”, em seus Atos 1 e 2, “é uma exposição-projeto no sentido de projeção para novos mundos possíveis, um lugar para criar estranhamentos e preenchimentos desta lacuna que estamos atravessando, em uma época em que um vírus afasta nossos corpos e impõe novos códigos sociais e barreiras no cotidiano, nos colocando em um estado de angústia e impotência, e evidenciando grandes abismos sociais já existentes”. Ela complementa, observando que a exposição pode ser vista “através da janela de nossos celulares, computadores ou, em um universo possível, na vitrine da galeria”.

UMA BREVE DESCRIÇÃO DOS TRABALHOS:

  • ANA CLARA TITO

“Os usos da raiva – momento 5” (2019), 1/5 (2 PA)

O trabalho é uma pesquisa que, a partir de ideias de permissão e de possibilidade, explora o registro e a potência do momento e a intelectualidade dos sentimentos. Numa coreografia calma e calculada, o metal é moldado e transformado em escultura durante as performances. Num processo de constante feitura, funcionando para além das definições de uma obra de arte pronta e congelada, as peças geradas seguem seu processo de mudança a cada nova instalação no espaço. A pesquisa é dividida em momentos, sendo cada momento realizado com uma quantidade de material necessariamente maior que a anterior.

  • BATMAN ZAVAREZE

“Infinito 01, 02 e 03” (2019), animação Full HD [1920×1080 pixels], 3’36”

A partir do desenho vetorial de uma borboleta, transformou o bater de suas asas em códigos e gerou os vídeos “Infinitos”. Ao todo são 47 vídeos livremente criados, sem determinações de um ponto final. Podem ser contemplados isoladamente ou combinados simultaneamente. Na última vez vivenciada, 47 projetores foram direcionados aleatoriamente numa caixa preta, onde chão, teto, e quatro paredes eram sobrepostos de vídeos em “loopings” com movimentos cíclicos, em diferentes perspectivas, oferecendo novos pontos de fuga e a interação do público, no meio de um cenário imersivo. Elas nascem como peças videográficas e constantemente são investigadas para uma vivência 4D. A imagem, o áudio, o espaço e a imaginação se complementam para compreensão dessa experiência em constante processo. “Infinitos” fazem parte das permanentes incompletudes, da inquietação em ver, sentir, escutar uma nova dimensão. 

  • GABRIELA NOUJAIM

“Mulheres Latinamerica 2020” (2020), vídeo, 3′ 33″

Produzido durante o período de quarentena devido à Covid-19, o vídeo é marcado pelo som da batida de um coração. A uma certa altura, a silhueta da artista aparece de forma fantasmagórica sobre a região da América Latina no mapa-múndi, seguindo com a projeção de uma radiografia de pulmão sobre seu corpo e o áudio de sua respiração. O som da música funde-se ao batimento cardíaco, apresentando os rostos das mulheres que estão lutando pela sobrevivência, trazendo suas marcas de “alma” estampadas nas máscaras cirúrgicas, formando um só corpo. Uma maneira de chamar a atenção para um vírus silencioso, que ninguém vê, e que é negligenciado por muitos chefes de Estado, o que agrava a situação da pandemia, principalmente em países marcados por desiguais sociais, como o Brasil.

  • IVAR ROCHA

“O Mundo Locomotiva Se Esfacela” (2013), vídeo, 58’

Baseado na ideia de arte como informação, este filme aborda aspectos críticos do tema, criando tensão entre a informação como tal e os processos de silenciamento presentes nas mais diversas instâncias da sociedade. Partindo de dois dispositivos potentes, sendo o primeiro uma pergunta extraída da cultura pop do anos 1980 – “Todo mundo tá feliz?”da música de Xuxa Meneghel (1989), e da intervenção “Arte/Pare”, realizada no Recife (1973) pelo artista Paulo Bruscky, onde uma ponte é interrompida por uma fita, desafiando os motoristas a atravessá-la. “O Mundo Locomotiva se Esfacela” é a princípio o registro de uma ação onde repito o gesto de Bruscky, 40 anos depois, somando a isso a pergunta da música. Após instalada, a faixa é abandonada, numa abordagem crítica aos aspectos materiais e simbólicos da violência, investigando a importância das imagens na manutenção de imaginários e ações brutais.

  • JONAS ARRABAL

“Roteiro para um filme sem imagens” (2019), 14’44

A Ilha do Japonês, localizada no interior do estado do Rio de Janeiro, é uma ilha artificial, criada na década de 1960 para servir de base para os barcos pesqueiros. Aterraram uma área no meio do canal, e plantaram casuarinas – uma árvore resistente a salinidade – para servirem de quebra-vento. O artista se utiliza de elementos que compõem este território para pensar numa parábola sobre os processos de imigrações, memória, deslocamentos, desaparecimentos contínuos e identidade. O texto é escrito e narrado pelo próprio artista e teve participação (em voz) de Shinpei Takeda, artista mexicano, de origem japonesa que vive e trabalha entre Kagoshima (local de origem da família de Jonas Arrabal) e Berlim.

  • LEANDRA ESPÍRITO SANTO

“Clarão” (2017), vídeo, 2’ em loop

“Clarão”(2017) é um vídeo da série “Apagamento” (2017/2018), que aborda a representação da própria artista, fazendo analogia às ideias de revelar, esconder e apagar. No vídeo, feito em stop motion, uma sequência de imagens simula movimentos fictícios de iluminação e escuridão.

  • MARTHA NIKLAUS

“Retirantes” (2019), vídeo, 9’4″

Luz e câmera: Francisco Moreira da Costa. Edição: Carlos Fernando Macedo e Martha Niklaus. Cor: Catarina Carvalho.

O trabalho foi motivado pela grande inundação que atingiu o Museu Casa do Pontal, no Rio de Janeiro, em 2019. A peça de barro utilizada no vídeo foi modelada pela artista a partir da observação das obras de Mestre Vitalino e Zé Caboclo, presentes no acervo do Museu. “Retirantes” usa efeitos visuais de fortes contrastes, desde a escolha da peça, cujo tema é o êxodo da seca, que é mergulhada em um recipiente de vidro cheio de água. O desmoronamento das figuras de barro cria uma atmosfera apocalíptica e germinal, como as experiências limítrofes vividas nas grandes catástrofes, guerras, enchentes e pandemia. São situações em que se perde o controle e formam feridas, abalando a estrutura do ser em um desmantelamento existencial, numa sensação de suspensão e expectativa.

  • NATHAN BRAGA

“Deriva” (2014), vídeo, 2”52’.

No vídeo, os refinados movimentos do artista estão em contraponto com os vazios arquitetônicos, e funcionam como golpes no que ainda existe de estável, de fixo, de duradouro em nós. Ao mesmo tempo, invoca devires inesperados de sonhos, nos suspendendo em uma dialética irreparável e inalienável de sentidos, se apropriando de um conceito bastante difundido, mas sugerindo derivas em nós mesmos.

  • PANMELA CASTRO

“Caminhar” (2017), vídeo, 4’50”, HD 720p.

Integrante do acervo do Museu de Arte Brasileira da FAAP, o vídeo mostra um vestido de noiva como um símbolo imponente, um grande fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte diária de milhares de mulheres, causada pelo simples fato de serem mulheres, biológicas ou não. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (Anuário Brasileiro de Segurança Pública), totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca.

  • ROBERTA CARVALHO

“INdiGesTo” (2020), vídeo, 3’15”.

O trabalho é uma performance audiovisual orientada para vídeo, que traz o ato de comer como um gesto de engolir e digerir uma realidade caótica. Na performance, temos uma projeção mapeada no prato que apresenta um vídeo com palavras tiradas dos noticiários atuais em tempos de pandemia. As palavras trazem as contrariedades e as desigualdades sociais que o momento de crise global torna ainda mais visível. O ato de comer denota nossa condição de indivíduo aprisionado em um cenário indigesto onde somos consumidos por esta condição.

  • SIMONE CUPELLO

“Sub” (2007), vídeo, 4’16”, cor, sem áudio

Uma das primeiras obras da artista, “Sub” possui o cerne de sua investigação sobre materialidade nas imagens. Naquele momento, Cupello utilizava o próprio corpo em experimentações que relacionam as superfícies de vídeos e fotografias com as de paredes e materiais de revestimento. A obra “Sub”, em que Cupello é vista nua movendo-se sobre os tacos de seu apartamento, foi originalmente concebida como videoinstalação e projetada em escala real no chão da capela excomungada do Solar do Unhão, Salvador, durante o 14o Salão da Bahia, em 2007.

  • TALITHA ROSSI

“CAPS LOCK” (A mãe natureza e a filha da internet, 2016), vídeo, 45”

Na era do messianismo digital em que vivemos uma nova linguagem escrita por símbolos e cancelamentos, o convívio corporal deu lugar para o convívio por telas. “A filha da internet” foi registrada durante uma performance da artista em Berlim em 2016. Quatro anos se passaram, a atrofia digital continua no enxame das vaidades e delírios virtuais. Só que desta vez nossos corpos e nossos aparatos digitais estão quarentenados. Confinados. Fugindo de microvírus para tentarmos não morrer. Mas o que seria um ser vivo neste tempo de mortos-vivos? Quem está vivo? O ser humano? A mãe natureza? Ou a internet?

  • URSULA TAUTZ

“Sem Título” (série “Estranhamentos”), vídeo em full HD em loop, 1’09”

Na cidade de Ołdrzychowice Kłodzkie, Polônia, lugar dos ancestrais da artista, Ursula refaz o caminho percorrido por sua família durante a guerra. Uma tentativa de criar laços afetivos e reconstruir a memória de forma não-linear, em um lugar de estranhamento, não pertencimento, de reencontro e entrega, o corpo da artista é amalgamado neste “lugar de origem”.

  • VIRGÍNIA DI LAURO

“Do gesto – ainda tatear as fissuras” (2019), 4’36, edição digital, feita a partir de pequenos fragmentos filmados e GIFs

Vídeo experimental, desdobrado a partir de fragmentos e GIFs atravessado por ruídos, falas, batidas e palavras soltas, onde através das janelas, tanto das telas, quanto nas janelas maquinadas, criam-se espaços de gestos e limites. No lugar de observador e observado, quase um delírio de se perder nos acontecimentos externos e se desconectar de si mesmo.

  • VJ GABIRU (Davi Cavalcanti)

“Urbe et orbi” (2020), vídeo, 3’21”. Videomapping, imagens, edição e audioremix: @vjgabiru. Imagens via drone: Gabriel Teixeira. Trilha sonora: Nego Mozambique.

Para a cidade e para o mundo, no silêncio da noite da cidade vazia, pequenos versos de luz efêmera no espaço urbano demarcam nossa esperança de humanos, para uma pandemia, até então, incurável. Vale o que nos faz únicos como espécie, a linguagem, a capacidade infinita de atribuir sentido e significado a tudo o que nos rodeia, para cidade e para o mundo, nesse século em rede, digital e plural.

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