Clara Moreira | Galeria Amparo 60

“Ato-desato”. Corpos que realizam movimentos, ações e gestos. Todos eles construídos por traços poéticos e afetivos que refletem sobre o próprio processo criativo e a prática do desenho. Essa é uma possível síntese para enxergar a nova exposição da recifense Clara Moreira. Ato-desato entrará em cartaz na Galeria Amparo 60, Zona Sul do Recife, nesta sexta-feira (18), sendo a primeira mostra individual com obras totalmente inéditas realizadas pela artista visual e desenhista. A curadoria é de Sofia Lucchesi.

Realizada em uma parceria com a SpotArt, a mostra conta com um espaço expositivo montado na antessala da galeria. Em 2020, Clara foi apontada como uma das 20 artistas de destaque no Brasil em editorial da SP-Arte e, no mesmo ano, foi selecionada pelo programa Convida, do Instituto Moreira Salles, e para o Salão Único de Artes do SESC Pernambuco. Antes disso, expôs ao lado de Tereza Costa Rêgo (1929 – 2020) e Juliana Lapa em Antes do cio dos gatos, na Amparo 60, e diversas outras exposições coletivas no Recife, além ter realizado duas mostras individuais, uma em Portugal e outra no Palácio da Artes, em Belo Horizonte (MG), como retrospectiva de seu trabalho com desenhos manuais utilizados em cartazes de cinema.

Em Ato-desato será possível ver uma boa amostra da natureza poética que caracteriza o trabalho da artista, com dezoito desenhos em diversos formatos (incluindo um autorretrato em tamanho natural). Clara também é conhecida pelo uso minucioso do lápis de cor, com resultados que se encontram entre a delicadeza e a força, a precisão técnica e a liberdade artística, o realismo e o sonho, mas principalmente, como num gesto que convida ao diálogo: “gosto de imaginar que o desenho é como uma carta ou um poema, que será lido por alguém que o vê, mas essa pessoa participa ativamente na leitura, compondo também com a sua própria subjetividade, por isso sempre procuro deixar uma pista e um segredo dentro de cada desenho, para que ele possa ser um convite ao pensamento vivo”. “Para mim, o meu corpo é como uma linguagem que posso acionar através do desenho, assim como pássaros, fitas de cetim, lágrimas, mas também geometria, composição, cor: são gramáticas entrecruzadas que procuro utilizar na ‘escrita’ desses desenhos. Nesta exposição, estou tentando colocar todos esses personagens para uma pequena coreografia que acontece no momento presente, em que estamos todos mergulhados, e nesta sala, no Recife e que quer envolver e se aproximar do público, quer conversar”.

“Ato-desato fala sobre o desenho em si, a prática de estar sempre desenhando. Clara tem um desenho realista, mas sem compromisso com a realidade pragmática, e com uma imensa liberdade gestual e poética. É o ato de desenhar, mas com um certo ‘desato’, que são os desvios que caracterizam a própria criação artística”, diz a curadora Sofia Lucchesi. “Também existe um desejo de se conectar que perpassa o conjunto de obras dessa exposição. Essa intimidade que ela traz do fazer artístico e das suas vulnerabilidades presentes nele têm um poder de acessar o coletivo. É possível acessar sentimentos comuns a uma coletividade tanto quando olhamos para os seus autorretratos quanto ao nos debruçarmos sobre as obras em que aparecem ações em grupo”.

A exposição faz parte do projeto Mirada, idealizado pela galerista Lúcia Costa Santos em parceria com a SpotArt. A ideia é, a partir da mirada, do olhar, de um espaço expositivo reduzido, quase uma vitrine, ampliar o alcance das obras. A artista também vai apresentar uma serigrafia, outra característica presente em todas as mostras do projeto. A iniciativa nasceu durante a pandemia e tem um caráter virtual muito forte, com uma série de ações online, aliado à possibilidade do presencial. Esta será a quarta exposição do projeto, que vai se estender ao longo de 2021.

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