Cidades Invisíveis | DESPINA

[Cidades Invisíveis], inspirada pelo livro homônimo do grande escritor italiano Ítalo Calvino, que empresta seu título à mostra. Não por acaso, uma das cidades imaginadas e descritas pelo autor em sua obra, Despina, igualmente dá nome à Associação Cultural que ocupa o espaço dedicado à arte contemporânea no Largo de São Francisco, no Centro do Rio.
Com obras de relevantes nomes das artes plásticas como Milton Machado, Hildebrando de Castro, Ana Holck, Marcos Chaves, e outros, o projeto também abrange outras expressões artísticas e conta com cinema, arquitetura, artes visuais, carnaval e literatura. A realização de [Cidades Invisíveis] tem como gancho os diversos processos (re)construtivos pelos quais a cidade do Rio de Janeiro tem passado nos últimos tempos. E abre uma reflexão sobre os legados urbanos que são/serão deixados por suas controvertidas administrações.
Sob curadoria do artista plástico Felippe Moraes, [Cidades Invisíveis] apresenta diversas expressões artísticas que, a partir de três eixos expositivos – demolição, construção e delírio – buscam subverter o modo de pensar e buscar soluções para a cidade. Com obras de diferentes técnicas e suportes a mostra procura estimular a discussão em torno do que percebemos, pretendemos ou imaginamos em termos de ocupação e uso do espaço urbano.
“Como artista, antes de ser curador, o projeto foi pensado de forma a criar uma ruptura na nossa compreensão sobre cidades, suas construções, demolições e delírios. Acontecendo em uma metrópole plural como o Rio de Janeiro, e tendo-a como fio condutor das discussões, não seria possível ignorar seu característico rompimento entre disciplinas, entre o público e o privado, a realidade e a fantasia carnavalesca. Desta forma compreendemos a cidade como uma miragem: podemos vê-la de maneira diferente da sua realidade, mas ela também nunca deixa de ser a imagem que fazemos dela”, explica Felippe.
A cidade invisível de Despina, que no livro de Calvino se apresenta de diferentes maneiras dependendo da posição de quem chega, se pelo mar ou pelo deserto, foi o ponto de partida para a criação da exposição: a partir de quais ângulos ou pontos de vista podemos perceber, imaginar, planejar e recriar nossa cidade? O deve ser eliminado, o que pode ser reaproveitado, e o que pode ser criado num ambiente onde vivem milhões de pessoas? Quais as implicações das transformações urbanas que queremos ou que nos impõem?
“[Cidades Invisíveis] é um projeto em sintonia com o momento atual não só do Rio de Janeiro, mas também com o Brasil e o mundo, em que os atuais modelos de cidade, e mesmo nações, já não correspondem aos anseios e necessidades dos seus habitantes. A construção de novos modelos é necessária e esta exposição pretende contribuir para o debate”, completa Consuelo Bassanesi, diretora artística da associação.
EIXOS EXPOSITIVOS
Demolição – Antes de se construir o novo, velhas estruturas e tradições precisam ser alteradas. As obras deste eixo procuram discutir as políticas públicas e as prioridades de quem toma as decisões neste âmbito, levando em consideração conseqüências sociais como gentrificações, realocações, remoções e deslocamentos populacionais:
– Filme “Homenagem à Matta-Clark – H.U.”, de Joana Traub Cseko e Pedro Urano – sobre a demolição de parte do Hospital Universitário da UFRJ, no Fundão
– Demolição do conj. habitacional Pruitt-Igroe, de Hildebrando de Castro – em óleo sobre tela, o artista faz um registro das implosões que deram fim a um dos lugares mais marginalizados do Missouri, nos EUA
– Concreto da Perimetral / (sem autoria, com material coletado do local da demolição)
– Serigrafias, de Ana Holck – inspiradas nas estruturas do viaduto da perimetral, posto abaixo para dar lugar ao Porto Maravilha
– Colagens, de Milton Machado / (e que faz a passagem entre a demolição e a construção)
Construção – Este eixo tem como parâmetro o Rio de Janeiro que construímos diariamente em termos arquitetônicos, urbanísticos, simbólicos e narrativos, através de idéias, concepções e projetos às vezes muito bons, e às vezes muito controversos. Para integrá-lo foram selecionadas as obras:
– “Paraíso Ocupado”, de Wouter Osterholt
– Colagens, de Amadeo Azar
– “Desculpe o transtorno”, de Marcos Chaves
– Athaydeville (torres da Barra da Tijuca), de Oscar Niemeyer
Delírio – Este eixo explora o conceito de que o Rio de Janeiro, antes de ser uma cidade é uma idéia que, por si só, já é um delírio, e propõe estimular o público a ir além das fronteiras do real e imaginar cidades ideais, ou mesmo impossíveis, através de obras como:
– Plano piloto da cidade espiritual Nosso Lar, por Heigorina Cunha – sonhado e desenhado pela artista, após ler o famoso livro de Chico Xavier sobre a cidade que existiria em cima do Rio de Janeiro
– “Tupinicópolis”, do carnavalesco Fernando Pinto, para Mocidade Independente 1987 – uma fantasia que imagina uma cidade brasileira dominada pela cultura indígena, na hipótese de que os índios não tivessem sido dizimados – O Rio de Janeiro como uma metrópole tupiniquim, criando-se aí uma espécie de “tupiniquismo”
– Projeto Le Corbusier – um projeto de reurbanização do Rio, sob o princípio modernista de uma arquitetura absoluta, capaz de resolver todos os problemas do mundo e que, obviamente, acabou por ser uma tentativa frustrada no balanço final do Modernismo
– Filme “Brazil” (1985), de Terry Gillian – tragicomédia onde os valores da modernidade se perpetuariam num futuro distópico, retratando uma sociedade burocrática e tecnocrática em uma série de sequencias non sense
– “Cidades de Areia” ou “And so castles made of sand, melts into the sea, eventually”(Jimi Hendrix), de Pedro Varela
BIBLIOTECA
A galeria ainda contará com uma pequena biblioteca com a bibliografia de referência da exposição recomendada para o visitante, que encontrará títulos como o supra mencionado “Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, além de “Horizonte Perdido” de James Hilton, “1984” de George Orwell, “Da Bauhaus ao nosso caos” de Tom Wolfe, entre outros.
ENCONTROS E DEBATES
Dentro do período em cartaz também serão programados dois encontros para a exibição de filmes seguidos de debates com o público para discutir a dialética entre arte e o espaço urbano:
1º – 10/08 – Longa metragem “Metrópolis”, de Fritz Lang / Conversa com Milton Machado, Bernardo José de Souza e mediaçao do Felippe
Clássico do cinema mundial, esta ficção científica alemã de 1927 impressiona pela sua atualidade, onde todas as previsões feitas para uma distopia futurista 100 anos depois de sua produção parecem se tornar realidade. O filme mostra as relações de dominação e submissão entre uma elite, que do alto de arranha-céus controla os meios de produção, e a massa de trabalhadores, oprimida e manipulada em seus horrores cotidianos.
2º – 17/08 – Curta metragem “Homenagem à Matta-Clark”, de Joana Traub Csekö e Pedro Urano/ Conversa com Joana Traub Csekö, Pedro Urano, Michelle Sommer e mediação de Felippe Moraes
O filme faz um registro poético do processo de demolição de uma parte não ocupada, abandonada e em ruínas, do gigantesco prédio modernista do Hospital Universitário da UFRJ, no Rio de Janeiro, e levanta a discussão sobre saúde e educação, e a atuação do poder público brasileiro.
PUBLICAÇÃO DO PROJETO
E, ao final, pouco antes do encerramento, será lançada a publicação do projeto, que trará também a experiência da realização desta exposição no espaço Despina. Com carta branca para o desenvolvimento de suas impressões, pensadores foram convidados a escrever sobre a mostra escolhendo os aspectos que mais lhes interessam, dentro do que eles percebem como “cidade invisível” e sob a ótica das suas pesquisas.
A realização de [Cidades Invisíveis] acontece sob patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Cultura para o ano de 2016, através do fomento para o Circuito Cultural Olímpico, que se realiza dentro da programação cultural sob o contexto dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

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