CASA PRÓPRIA | MUSEU BISPO DO ROSARIO

Crédito: Rafael Salim

Durante décadas, os caquinhos de cerâmica — fragmentos quebrados descartados pelas fábricas — foram comprados a baixo custo pelas famílias do subúrbio carioca e colados nas fachadas de suas casas. O que era refugo virou identidade. É desse material e da inteligência prática de quem constrói sem projeto nem financiamento que Ana Hortides apresenta a Exposição Casa Própria,  em exibição no Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea até o dia 9 de maio.

Com curadoria de Pollyana Quintella e produção da Atelier Produtora, a primeira individual da artista na instituição reúne esculturas produzidas ao longo de anos de pesquisa — incluindo obras inéditas — que investigam a casa como espaço político, afetivo e de resistência. No sábado, dia 9, às 14h, no encerramento da mostra, acontece o Seminário do programa de formação com Ana Hortides, Thiago Grisolia e Silvana Marcelina, com mediação de Joana d’Arc de Nantes, seguida do lançamento do catálogo.

A partir de referências diretas à arquitetura do subúrbio carioca, Ana Hortides desenvolve uma investigação plástica que transforma elementos recorrentes da construção civil popular em matéria artística. Cimento, azulejos, pisos e fragmentos cerâmicos aparecem em esculturas, instalações e pinturas que deslocam esses materiais de seu uso funcional, criando estruturas que tensionam noções de permanência, improviso e pertencimento.

Oriunda de Vila Valqueire, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a artista estabelece uma relação direta entre sua trajetória pessoal e os modos de construção presentes nas periferias urbanas. Escadas, lajes, fachadas e platibandas, frequentemente associadas ao trabalho informal e ao saber prático de pedreiros e construtores populares, surgem na exposição como formas autônomas, deslocadas de suas funções originais para se afirmarem como linguagem visual e discurso crítico.

A exposição ocupa a galeria Carlos Miguel do Museu Bispo do Rosario reunindo obras das séries Casa 15 (2020-2026),  Platibanda (2024-2026) e To and fro (2026). Em Casa Própria, Hortides investiga os padrões ornamentais que marcam as fachadas das casas populares brasileiras, especialmente o uso de cacos cerâmicos e pisos coloridos aplicados de forma manual. Essas composições, muitas vezes nomeadas pela artista como “padrão” ou “raios”, compõem um repertório visual que atravessa o cotidiano urbano e ganha densidade poética no espaço expositivo.

“O meu trabalho nasce da observação da construção civil popular brasileira e das fachadas ornamentadas com cacos cerâmicos, entendidas como um repertório visual. As séries transformam esses gestos e materiais cotidianos em escultura, afirmando identidades populares e o valor simbólico dessas arquiteturas que resistem ao tempo”, diz Ana Hortides.

As fachadas, platibandas e terraços dessas construções possuem uma estética única, carregada de significados afetivos, históricos e culturais, expressos nos adornos, desenhos e padrões formados por pisos e cacos cerâmicos coloridos. Essa memória visual e material é diretamente conectada à experiência pessoal de Ana Hortides, cuja família ergueu, com as próprias mãos, a casa onde ainda vivem no subúrbio do Rio de Janeiro. A pesquisa da artista se entrelaça com a tradição da autoconstrução, tão presente nas periferias brasileiras, e com rituais comunitários como “bater laje”, símbolo potente de resistência e pertencimento.

“As platibandas e raios de Ana Hortides inscrevem uma estética que a modernidade brasileira frequentemente tratou com desprezo, classificando-a como kitsch, pastiche ou mau gosto. Sua obra, porém, não se limita a celebrar essa arquitetura de forma nostálgica ou documental. Há uma operação formal sofisticada em jogo. Ao isolar esses elementos e reapresentá-los em escala alterada, com materiais que explicitam sua natureza de fragmento e montagem, a artista os desloca de sua função utilitária e os reinstaura como linguagem plástica. Os trabalhos se tornam quase abstratos, lidos tanto como arquitetura quanto como corpo. São ao seu modo excrescências, apêndices, órgãos que crescem da parede. A casa deixa de ser apenas metáfora do íntimo e passa a se comportar como organismo”, declara Pollyana Quintella.

Além da exposição, Casa Própria oferece um programa de formação com a artista e pesquisadores. O evento aborda temas como arquitetura popular, arte periférica e protagonismo feminino na produção artística. A mostra também conta com audiodescrição das obras e intérpretes de Libras na visita guiada e atividade formativa, garantindo acessibilidade às pessoas com deficiência.

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