Com curadoria de Gabriela Davies, a mostra reúne esculturas, assemblages e trabalhos inéditos que transformam porcelanas, bibelôs e objetos ornamentais em metáforas sobre controle, feminilidade e resistência.
A artista multidisciplinar paulistana Carol Ambrósio inaugura, em 27 de maio de 2026, a exposição individual Jardim, no Centro Cultural Correios, com curadoria de Gabriela Davies. Reunindo obras recentes inéditas, a mostra apresenta esculturas, assemblages e trabalhos bidimensionais construídos a partir da coleta, destruição e recomposição de cerâmicas, porcelanas, toalhas de mesa e utensílios domésticos. Ao reorganizar esses elementos em estruturas instáveis, frágeis e, ao mesmo tempo, resistentes, Carol transforma o universo doméstico em um campo de reflexão sobre as construções sociais do feminino, seus códigos de comportamento e suas possibilidades de ruptura.
A exposição parte de um repertório íntimo ligado ao antiquário de sua família, ambiente no qual a artista conviveu desde a infância com objetos carregados de memória, acúmulos e narrativas.
Em Jardim, esse imaginário reaparece em figuras fragmentadas, paisagens interrompidas, totens cerâmicos e composições híbridas que parecem oscilar entre ornamentação e colapso. Em muitas obras, figuras femininas aparecem fundidas a objetos decorativos, vasos e flores, numa investigação crítica sobre os lugares historicamente atribuídos às mulheres no espaço doméstico e social. São trabalhos que evocam comportamentos associados ao feminino, ressignificados em construções marcadas por deslocamento, ironia e resistência.
O título da mostra surge da reflexão sobre o jardim como espaço de organização e controle da natureza. “Existe uma ideia de composição harmoniosa que parece espontânea, mas que, na verdade, é cuidadosamente construída. Cada planta ocupa um lugar pensado previamente. Há uma tentativa de controlar aquilo que seria naturalmente livre”, observa Gabriela Davies. “A exposição parte dessa metáfora para pensar como determinadas ideias de feminilidade foram historicamente cultivadas.”
Entre as peças apresentadas estão obras da série Estruturas Moles, nas quais imagens femininas surgem parcialmente encobertas sobre pastilhas cerâmicas e tecidos bordados, além de assemblages que combinam porcelanas antigas, utensílios domésticos e esculturas híbridas. Também integram a mostra peças inéditas da série Bichos, em que figuras felinas e totêmicas aparecem como contraponto simbólico à fragilidade associada aos objetos decorativos tradicionais.
Ao longo de sua produção, Carol Ambrósio desenvolve procedimentos de corte, destruição e recomposição como estratégia poética e conceitual. Cerâmicas tradicionais são quebradas e reorganizadas em novos corpos escultóricos, enquanto imagens são retalhadas e recombinadas em composições que operam pela metáfora. Sua pesquisa investiga justamente aquilo que pode ser transformado: objetos, narrativas, memórias e papéis sociais naturalizados.
“Existe nas obras da Carol uma tentativa de se libertar dos conformes domésticos justamente através deles. Ao recompor objetos tão ligados à ornamentação, à domesticidade e às expectativas historicamente projetadas sobre o feminino, suas esculturas parecem buscar uma forma silenciosa de rebelião”, afirma a curadora.

