Carlos Mélo | Galeria Kogan Amaro

A partir de XX de abril, a Galeria Kogan Amaro exibe a mostra online Overlock, do artista Carlos Mélo. A exposição reúne trabalhos inéditos do artista, realizados a partir de sua reflexão sobre o impacto ambiental e cultural da indústria têxtil na região do agreste de Pernambuco, seu estado natal.

O título da série, Overlock, é comum na região: é o nome de uma máquina de costura industrial bastante utilizada por efetuar, simultaneamente, a costura e o acabamento. O tecido, principal matéria-prima da cadeia produtiva local, foi apropriado por Mélo e transformado em esculturas têxteis e performáticas. O conjunto rememora a trajetória do artista, que tem a experimentação de materiais, a escultura e a performance como marcas de sua criação.

Natural de Riacho das Almas, município do estado de Pernambuco no qual reside e executou o projeto, Carlos Mélo impregna este trabalho de temas que estão à sua volta, reforçando seu interesse em criar ponte entre arte e comunidade. “As peças são obras autônomas, mas também criam uma instalação. A ideia da exposição virtual foi montar as esculturas inseridas na paisagem ampliando o campo relacional entre a arte e o lugar, a natureza e a tecnologia, além do artista como agente cultural capaz de não apenas produzir obras de arte, mas também produzir sentido”, explica o artista.

O tecido utilizado para a série é uma espécie de “jeans encorpado” confeccionado pelo Daterra Project, que desenvolve um trabalho sustentável na Vila do Vitorino ao aproveitar ourelas (beirais) de jeans que seriam descartadas pela indústria da moda, resultando em um novo tecido. Em parceria o Avoante Ateliê, Carlos Mélo interveem no tecido reciclado com bordados e aplicações de spikes, miçangas, paetês, faixas metálicas autocolantes e outros elementos, transformando o tecido, da mesma forma feita pela moda a cada coleção.

“As obras remetem aos mantos do maracatu, a cerimoniais africanos e asiáticos, criando campos simbólicos. E também à customização da indústria da moda sobre os modelos de cada temporada”, complementa Mélo.

Dispostos sobre estruturas de ferro fixadas em árvores ou no chão, os tecidos formam esculturas que chegam a medir 1,80 m de altura e pesar aproximadamente 30 kg, dada a gramatura do jeans. A presença delas num território agrário esvaziado evoca a falta de políticas públicas agrícolas como fator que impulsionou a transição do trabalho do campo para fábricas de costura montadas em casa.

Ao flexionar arte, moda e mercado, as esculturas também renovam o imaginário criado há mais de cem anos em torno da região em que o trabalho foi desenvolvido. Overlock aponta para uma região do Brasil onde a indústria e a tecnologia podem produzir artefatos, neste caso, deslocados para a arte contemporânea.

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