Caio Rosa e Francisco Nuk | Galeria Lume

Visões do Luvemba, 2021, Caio Rosa

Com a proposta de expandir seu espaço físico e propor uma diversidade de visões e temáticas, a Galeria Lume inaugura, no dia 16 de outubro, duas mostras individuais e inéditas dos artistas Caio Rosa e Francisco Nuk .

No espaço expositivo principal da Galeria, a mostra Fio: Gaveta de si, ofício de ser, de Francisco Nuk, apresenta obras que refletem sobre a utilidade e a essência dos mobiliários em sua intima relação com seu entorno. O Anexo Lume, no mesmo endereço, recebe a série Visões do Luvemba do artista convidado Caio Rosa .

Fio: Gaveta de si, ofício de ser

Na exposição, a função do mobiliário dentro de um espaço e a relação dele com o indivíduo é evidenciada em uma série de obras de grandes dimensões e em formatos distintos, como esculturas, cristaleiras, armário e uma instalação de gavetas. “Quando eu quis tirar a utilidade de um objeto, buscando o inútil, percebia que a utilidade ia se moldando. O inútil nunca acontecia de fato.”, explica Francisco Nuk.

A principal obra da mostra, uma instalação composta por 150 gavetas penduradas e orientadas por um fio questiona qual a utilidade da gaveta ao retirá-la de dentro de um armário. “A ideia é subverter o objeto, dando personalidade a ele, ao mesmo tempo em que ele não perde a sua aparência física.”, pontua o artista.

Segundo o curador da mostra, Paulo Kassab, “Francisco trata os objetos como se fossem seres vivos pertencentes ao espaço, não só como utilitários. Na instalação, ele desloca a gaveta para fora de um espaço comum, o que aparenta perder sua função, mas ressalta toda aquela aura de magia e segredo que ela possui”.

Francisco cresceu no meio artístico e desde criança foi estimulado a estudar diferentes tipos de ofício. Quando adolescente, se interessou pela marcenaria e passou a mergulhar nos estudos e práticas de diferentes técnicas utilizando a madeira. Desde então, desenvolve seus trabalhos feitos manualmente.

Uma de suas esculturas carrega uma tora de madeira bruta presa na base de um armário, evidenciando a questão do ofício e da origem. “Por mais que eu seja artista visual, antes de tudo eu sou marceneiro. Todo o processo de produção me interessa, desde a escolha da técnica para manipular a madeira, o ato de lixar, até a finalização. Todas as possibilidades que o ofício me propõe, me trazem mais incentivo para criar”, comenta Nuk.

Fio: Gaveta de si, ofício de ser, 2021, Francisco Nuk | FOTO: Júlia Amaral

Visões do Luvemba

A mostra individual Visões do Luvemba, do artista Caio Rosa, traz ao anexo da Lume fotografias e máscaras de acervo que são utilizados na expressiva cultura dos Bate-bolas, grupos fantasiados que saem pelas ruas dos bairros do Rio de Janeiro batendo bolas de borracha no chão no feriado de carnaval, criado no subúrbio na década de 1930.

A exposição tem o intuito de preservar a tradição, além de investigar e conectar a origem africana das máscaras e sua simbologia. A produção artística traz uma reflexão sobre o conceito geral da Diáspora e da África contemporânea a partir da relação entre a utilização de máscaras na cultura dos Bate-bolas, e na caracterização dos povos centro-africanos, em especial os “BaKongo” e os Chokwe do norte e nordeste de Angola.

O ato de se mascarar, para as culturas africanas, tem como finalidade estabelecer e transmitir sentimentos como o medo, admiração, fascínio, mistério e serve como artifício de compartilhamento de histórias ancestrais para as novas gerações.

Segundo o curador da exposição, ” Caio traz luz à centenária tradição dos bate-bolas no Rio de Janeiro e vai além, ele reescreve a origem cultural destes desfiles relacionando as máscaras utilizadas tradicionalmente com o legado da cultura de máscaras no povo centro-africano”.

A série Visões de Luvemba, além de máscaras e fotografias, se desdobra em algumas peças de joias e esculturas. A mostra é uma forma de dar visibilidade e de trazer para o debate artístico as simbologias de cada objeto, aproximando-as de suas referências africanas originais, além de incluir os Bate-bolas como uma potência cultural que ultrapassa as limitadas fronteiras dos bairros suburbanos do Rio de Janeiro, se tornando uma das manifestações mais importantes do sul global.

O termo Luvemba representa a terceira fase ou hora do cosmograma Bakongo, uma espécie de cabala da cosmovisão dos povos centro-africanos que flagra a queda do mundo do intangível (KuMpemba) e representa, para alguns, a morte simbólica dos seres viventes.

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